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Viradouro pede axé para renovar a energia da Sapucaí

Escola encerra desfiles com enredo que mistura orixás e biocombustível.
Carnavalesco Milton Cunha promete leitura moderna aos deuses africanos.


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Orixás no desfile ecologicamente correto da Viradouro


Quem disse que o carnaval não é época de se pensar no meio ambiente? A Viradouro, que encerra os desfiles do Grupo Especial, quer dar seu grito de alerta na Avenida, mas de uma forma que vai além do discurso científico. A escola de Niterói pede licença à velha sabedoria dos deuses africanos para apresentar soluções a um planeta em constante degradação. “Eles já dominavam a ciência antes mesmo dos laboratórios”, afirma o carnavalesco Milton Cunha, autor do enredo “Vira-Bahia, pura energia”. Na busca pelo título, a vermelha-e-branca vai se vestir também do verde para fazer sua gira ecologicamente correta na Sapucaí. Tudo para que o mundo entre nos eixos da consciência ambiental e do desenvolvimento sustentável, desta vez de mãos dadas com o axé dos orixás.

“Cuidar do meio ambiente também é um grande desafio para a humanidade, que já percebeu a importância de prestar atenção à natureza. Coisa que os orixás já lidam desde os tempos ancestrais. Um cata-vento de energia eólica nada mais é do que uma manifestação de Iansã, a deusa dos ventos. Assim como as represas hidrelétricas, com suas quedas d’água, são a morada de Oxum, deusa das águas doces e das cachoeiras”, explica o carnavalesco Milton Cunha, que entra no lugar de Paulo Barros, hoje defendendo a Vila Isabel.

Em oito carros alegóricos e 39 alas, a vermelha-e-branca de Niterói promete apresentar na Avenida uma leitura moderna dos orixás, bem diferente do que costuma passar na Avenida quando o desfile pede uma temática afro.

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Milton Cunha


“Não uso nas fantasias ou no acabamento das alegorias materiais como búzios, palha da costa, ráfia ou outros que logo são associados à África. Meu afro será moderníssimo. Oxalá, o grande Senhor do Bonfim, é um negão que abre nosso desfile com uma couraça de vidro e mãos que viram garras para salvar o planeta”, conta Milton, em referência ao abre-alas da escola.

A primeira alegoria mostra o encontro do céu com a terra – ou o Orum com o Ayiê, na linguagem iorubá, como cita o samba-enredo da Viradouro. Na segunda parte do carro, Milton Cunha cita uma das fontes de energia natural produzidas na terra: um imenso canavial com mais de 60 mulheres pra lá de sensuais.

“Oxalá chega ao Aiyê com sua pomba da paz e encontra uma imensa plantação de cana-de-açúcar, por onde passam tratores, louva-a-deus e mulheres lindíssimas, todas sambando livremente, sem coreografia. Temos também homens maravilhosos, vestidos de joaninhas. Tudo com muito luxo e muita alegria”, explica o carnavalesco, que faz a ponte com a Bahia para mostrar o reduto africano no Brasil.

“A Bahia herdou todo esse pensamento negro vindo da África. Faço essa ponte do enredo com nosso país. Inclusive reproduzimos numa outra alegoria as ruas do Pelourinho e o Elevador Lacerda misturados a bombas de biocombustível”, justifica o carnavalesco.

Transe ecológico

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Pilão de Ossanha: folhas da energia


Milton Cunha volta à Viradouro depois de conquistar o terceiro lugar para escola em 2006, em parceria com os carnavalescos Mário Monteiro e Cacá Monteiro. Agora sozinho no comando do barracão, Milton promete invocar a vasta galeria de tipos da religião afro-baiana para firmar na Avenida seu panteão bioenergético em defesa do meio ambiente. Ossanha (conhecido também como Ossaim), deus que cuida das ervas e das plantas medicinais, é lembrado na segunda alegoria.

“Sem folha não tem vida, sem folha não tem nada. O tubo de ensaio hoje nada mais é do que o pilão de onde se extrai o sumo das ervas quinadas, ainda muito utilizado nos cultos de candomblé”, compara o carnavalesco. "No centro dessa alegoria montamos um carrossel de Ossanha, com esculturas de seres, meio mulheres meio duendes, simbolizando as sementes dos grãos da nossa energia mística", acrescenta.

Um momento que promete divertir o público, destaca Milton, está no quarto setor da escola, que extrai da culinária baiana o azeite de dendê, mais uma alternativa natural de energia proposta pela Viradouro. No carro, uma piscina de quatro mil litros d’água vira um grande tacho de cozinha, onde são feitas iguarias como a tradicional moqueca. Nela, mulheres seminuas vão representar os camarões da receita.

“O dendê, óleo sagrado dos orixás, sai da panela direto para abastecer os motores da bioindústria. É uma alegoria com efeitos de luz e muita fumaça. No carro, temos ainda a escultura de uma legítima mãe-de-santo, a ialorixá que prepara as comidas dos orixás. E as mulheres que vêm como destaques são a sensualidade, aquele tempero meio ‘Gabriela cravo e canela’ que só a Bahia tem”, conta, rindo, Milton Cunha.

Obama cai no samba

Escola é a última a desfilar na Marquês de Sapucaí.jpg
Escola é a última a desfilar na Marquês de Sapucaí


Até Barack Obama, quem diria, participa do desfile da Viradouro. O carnavalesco faz menção ao novo presidente dos Estados Unidos durante a passagem da ala das crianças.

“Nossos pequeninos são os super-heróis americanos, todos vestidos de verde, para criticar os Estados Unidos por não terem assinado o Protocolo de Kyoto, tão importante para a consciência ambiental. Com George Bush saindo do poder e Barack Obama chegando, vejo que as minhas preces a Oxalá foram atendidas”, diz Milton Cunha. O carnavalesco aproveita o mote de Kyoto para levar Iemanjá ao encontro dos japoneses.

“É um momento ecumênico do desfile. Nossa entidade maior das águas pede socorro a Raji-Kuji, o deus da província japonesa de Kyoto, pedir para que o mundo se preocupe mais com os recursos hídricos cada vez mais escassos e também com as mudanças climáticas, que só fazem subir o nível dos nossos oceanos”, frisa o carnavalesco.

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Iemanjá em Kyoto


A reciclagem, tão em voga em tempos de consciência ambiental, ganha espaço com Nanã, orixá feminino encontrado nas áreas pantanosas, com muito lodo e lama. Mas a alegoria não carrega qualquer tom sombrio que esse cenário possa lembrar. É um carro que ganha um colorido especial, associado ao azul e roxo, cores características da deusa.

“Nanã é a nossa vovó orixá, que faz do velho, do bagaço, do já usado uma alternativa triunfal para a vida”, explica Milton Cunha, que também promete um encerramento de impacto. “Temos o beijo de Iansã e Xangô, deus do trovão, num carro acoplado, emanando energia para a Sapucaí. Um afro bem moderno, bem como canta nosso refrão do samba: ‘Caô Xangô / Iansã Yalodé’”, conta.

No batuque

Atabaques na bateria.jpg
Atabaques na bateria


Para conclamar todos os orixás para ajudar a Viradouro a conquistar o tão sonhado título, comemorado uma única vez há 12 anos, a bateria de Mestre Ciça não fez por menos: colocou 20 atabaques, igual aos tocados nas festas de candomblé, para se integrar aos ritmistas da escola. Segundo o carnavalesco Milton Cunha, eles representam os Filhos de Gandhi, grupo que desfila no carnaval baiano.

“Serão quatro paradinhas além dos atabaques, que vão ficar no meio da bateria. Foi uma ideia minha para pedir axé à Viradouro com o ritmo do ijexá. A Avenida vai incorporar com a gente”, comentou Ciça, que completa em 2009 dez anos na vermelha-e-branca com uma rainha nova: a dançarina Juliane Almeida. Vencedora de um concurso interno na escola, a morena substitui a atriz Juliana Paes, hoje no ar com a novela “Caminho das Índias”.

Quem retorna a Viradouro é o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Robson e Ana Paula. Foi na Viradouro que eles se conheceram, em 1991, e deram início a uma história que hoje soma 15 anos de casamento.

“Eu sabia que um dia ia voltar para a Viradouro, só não esperava que fosse ser tão rápido”, conta Ana Paula. Ela vai representar o jogo de búzios simbolizado nas pinturas do artista plástico Carybé.

Fonte: http://g1.globo.com/Carnaval2009/0,,MUL ... PUCAI.html