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Um videogame da Apple?

Sabe quando você está tocando sua vida, e de repente aquele monte de fragmentos de idéias que estão guardadinhos no fundo da sua mente resolvem fazer “click” e você tem aquele momento “como não pensei nisso antes??“. Pois é, aconteceu comigo na quinta-feira.

Eu estava passando pelas notícias do dia, quando vi alguns sites comentando um boato de que a Apple estaria em negociações para comprar a Electronic Arts, uma das maiores desenvolvedoras de jogos do mundo. Parei por um segundo e pensei: “Balela, até parece que a Apple quer entrar no mercado de videog… CLICK!”

Pensando bem, faz todo o sentido a Apple entrar no mercado de videogames. Não só faz sentido, como acredito que ela já está se preparando para isso. E não é com software, é com hardware, com um console com o logo da maçã estampado na tampa, “brigando” com o PlayStation 3, XBox 360 e Wii.

Vamos às evidências: A Apple contratou Mark Papermaster, ex-IBM, que participou no desenvolvimento da família de processadores PowerPC (por sinal, usados de uma forma ou de outra no XBox 360, Wii e no PlayStation 3). Depois, levou para Cupertino Bob Dreblin e Raja Koduri, ambos da AMD/ATI. Dreblin trabalhou no projeto da GPU (chip de vídeo) do GameCube, e Koduri era Chefe de Tecnologia para o desenvolvimento de novos produtos gráficos (leia-se: GPUs).

Além disso, a Apple também comprou a P.A.Semi, uma empresa especializada no design de processadores de baixo consumo baseados na arquitetura PowerPC. Ou seja, a Apple tem tudo o que é necessário para projetar e colocar no mercado uma nova família de CPUs e GPUs. Está com a faca, o queijo, os pratinhos, palitinhos e guardanapos na mão.

E aí você diz “Mas Rigues, quem disse que esses chips tem que ser pra um videogame?”. Realmente, eles poderiam ser para um novo iPhone. Mas um investimento deste tamanho para beneficiar uma única linha de produtos (iPhone/iPod Touch) é um certo exagero. Quando projetam um novo processador/chip de vídeo, as empresas levam em consideração toda uma gama de produtos nas quais eles poderão ser utilizados. Isso gera volume, que reduz os custos e aumenta o lucro. É matemática financeira básica. Ou seja, a Apple tem cartas na manga.

E aqui entra mais uma peça do quebra-cabeças: a Apple também contratou Richard Teversham, ex-membro da divisão de entretenimento da Microsoft, e responsável pela estratégia de comercialização do XBox 360 na Europa, Oriente Médio e Ásia. Um cara de videogames? Opa, tá ficando interessante!

Some-se a isso o fato de que a Apple não precisar “entrar” no mercado de videogames. Ela já está nele, com os dois pés firmemente plantados. Sabe o iPhone e o iPod Touch? São excelentes consoles portáteis, e há mais de 7 mil jogos para eles na App Store. Vejam o último comercial do iPod Touch: cadê os vídeos? cadê a música? nenhum sinal, os jogos são a estrela.

Como em todo console muitos destes games são ruins, é verdade, mas o interesse nos aparelhos é tanto que todas as grandes produtoras, incluindo aquelas que citei no começo do post, estão produzindo jogos para eles. E lucrando horrores: o desenvolvedor de Trism, um quebra-cabeças, ganhou US$ 250.000 em dois meses. E há muito mais pessoas como ele.

E esta é a peça-final do quebra-cabeças: software. Nenhum console sobrevive sem software. As pessoas não compram um videogame porque ele tem oito processadores, compram porque os jogos são divertidos, cativantes, inovadores (veja o caso do Wii). Vide fracassos anteriores como o 3DO e o Jaguar, maravilhas tecnológicas ignoradas pelo público graças à falta de bons títulos. Mas com tanta gente criando software para o iPhone, pode ter certeza de que haverá uma fila de programadores ansiosos no dia em que a Apple anunciar um videogame. Jogos não vão faltar.

Dá até pra prever como será o tal console. A Apple já tem um portátil, o iPhone. Falta um console doméstico, “de mesa”. E é natural que a Apple integre isso a um produto que já existe, a Apple TV: uma “caixinha” (não vendida no Brasil) que, plugada à TV, oferece acesso a música, fotos e vídeos armazenados nos computadores (de preferência Macs) da casa, bem como acesso à iTunes Store para compra ou aluguel de filmes em alta definição.

As Apple TV atuais usam chipsets Intel, não adequados para games 3D. Mas nada impede a Apple de equipar futuras gerações com novos processadores e chips de vídeo projetados pela P.A. Semi. Junte um par de joysticks (ou integração com o iPhone/iPod, para ele funcionar como joystick), distribuição de jogos via App Store e pronto, você tem um console doméstico matador, com acesso a jogos de todas as grandes produtoras, e de vários desenvolvedores independentes geniais, sem sair do sofá da sala. Onde eu assino?


Fonte: http://colunistas.ig.com.br/tecnologia/ ... #more-5087