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Tradição Católica

Autor : Matéria extraída de uma ou mais obras literárias.


Continuamente os católicos romanos afirmam que nós, os evangélicos, rejeitamos as tradições. Não é verdade! De maneira nenhuma rejeitamos todas as tradições, muito pelo contrário, colocamo-las no seu lugar devido até onde elas concordam com as Sagradas Escrituras e se fundamentam da genuína fé cristã “que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Judas v.3). Dentro destas tradições, destacamos as confissões e os pronunciamentos dos concílios de diversas igrejas, de maneira particular aquelas da Igreja Primitiva que expressam o conteúdo central da mensagem cristã inseridas nos Credos Apostólico e Niceno, e das confissões do tempo da Reforma Protestante do século XVI. Também encontramos tradições nas confissões e decisões dos concílios das igrejas hoje, às quais devemos dispensar minuciosa atenção, tendo o cuidado de investigar com maior atenção e cuidado seu conteúdo bíblico-teológico, pois a nenhuma igreja lhe foi dado o direito de formular novas doutrinas ou tomar decisões contrárias aos ensinamentos das Sagradas Escrituras, pois a História da Igreja registra que líderes e concílios podem cometer erros crassos e os cometem, alguns deles seriíssimos comprometendo a verdadeira fé cristã.

As decisões conciliares só merecem autoridade, quando se baseiam nas Sagradas Escrituras, pois elas estão em primeiro lugar como única regra de fé e prática autorizada e suficiente em si mesma, e que os padrões denominacionais em sua diversidade existentes devem ser subordinados e colocados em posição secundária. Portanto, nossas tradições tem autoridade subordinada e secundária, podendo ser modificadas quando as suas crenças e práticas não estão em total acordo com a Bíblia Sagrada, a inerrante Palavra de Deus, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristãos.

A irreconciliável controvérsia secular entre o Protestantismo e o Catolicismo Romano é exatamente a questão da autoridade suficiente e final em matéria de fé. A “Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina ‘Dei Verbum’ ”, aprovada, decretada, estabelecida e promulgada aos 18 de novembro de 1965 pelo falecido papa Paulo VI assim diz: “O múnus de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição[1], foi confiado só ao magistério vivo da Igreja[2], cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas está a seu serviço, não ensinando senão o que foi transmitido, enquanto, por mandado divino e com assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, guarda santamente e expõe fielmente, haurindo deste único depósito da fé todas as coisas que propõe à fé como divinamente reveladas”.[3]

E o novo Catecismo da Igreja Católica[4], em sua primeira parte, no Capítulo II, Artigo 2, II, quando fala da “Relação entre a Tradição e a Sagrada Escritura”, na pág. 34, # 80 diz: “Elas estão entre si estreitamente unidas e comunicantes. Pois promanando ambas da mesma fonte divina, formam de certo modo um só todo e tendem para o mesmo fim”[5]. Mais adiante diz que, “a Igreja (Católica), à qual estão confiadas a transmissão e a interpretação da Revelação, ‘não deriva a sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado somente da Sagrada Escritura. Por isso, ambas (Escritura e Tradição) devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento de piedade e reverência”[6]. E na ‘Dei Verbum’ o posicionamento é mais explícito: “a Igreja (Católica) não tira a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas só da Sagrada Escritura. Por isso, ambas (Escritura e Tradição) devem ser recebidas e veneradas com igual afeto e piedade”[7]. Dando a sua conclusão neste capítulo, o Catecismo, afirma: “Fica, portanto, claro que segundo o sapientíssimo plano divino , a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja (Católica) estão de tal modo entrelaçado e unidos, que um não tem consistência sem os outros, e que juntos, cada qual a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas”[8].

Vale salientar que a Igreja Católica Romana nem sempre foi o que é hoje. Ela chegou ao seu estado atual através de um processo de desenvolvimento a longo prazo, com acréscimos de novas doutrinas, novos ritos, novos costumes e muitas outras adições, ao longo de 16 séculos. Por conseguinte, o Catolicismo Romano praticado atualmente é fruto de muitos séculos de erros e de tremendas apostasias acopladas ao seu sistema eclesiástico. Ao longo dos séculos, a Bíblia Sagrada foi sendo paulatinamente sendo substituída pelas invenções da crendice popular e aprovadas nos concílios supostamente infalíveis, com o resultado da importação de sistemas pagãos para dentro do Cristianismo.

A “Doação de Constantino”[9] ao papa Silvestre, documento este incluído nas ‘decretais forjadas’, e que teve a sua autoridade posta em questão no século XVI, cuja autenticidade foi impugnada por muitos homens eminentes, sendo sua falsidade finalmente provada por Lourenço Valla e hoje completamente desacreditado, mais os falsos “Decretos de Isidoro”[10], foram os documentos responsáveis pela ‘fabricação’ da assim chamada “sagrada tradição”.

Reportando-nos ao IV Concílio de Constantinopla, em 869 d.C., verificamos que foi promulgado, em seu primeiro cânon, o reconhecimento da tradição, não aquela tradição oral como é hoje defendida pela Igreja de Roma, como aquela que foi estabelecida no Concílio de Trento, mas de uma tradição arquivada nos compêndios da Igreja, constando de uma ininterrupta série de testemunhos, sendo fácil a sua comprovação. Este Concílio tampouco considerou essa tradição no mesmo grau de autenticidade que as Sagradas Escrituras, como assim promulgou o Concílio de Trento, mas apenas a apontou como um “oráculo secundário”. Foram decorridos 15 séculos para que a “sagrada tradição” fosse colocada no nível das Sagradas Escrituras para empanar e sustentar todas doutrinas de então até hoje, da Igreja de Roma. O decreto em questão teve a seguinte redação:

Sobre a Escritura e a TradiçãoSessão IV, 8 de abril de 1546

Concilium Tridentinum, Diariorum, et
Denzinger, 783(1501)“A santa e universal assembléia eclesiástica de Trento... ocupou-se sempre da superação dos erros e da conservação da pureza do Evangelho na Igreja. A seu tempo, este Evangelho foi prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras; Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, anunciou-o por sua própria boca. Ele mesmo fez que o Evangelho, como fonte de toda verdade salvífica e da ordem moral, fosse pregado a todas as criaturas pelos seus Apóstolos. A santa assembléia eclesiástica sabe que esta verdade e esta ordem estão contidas em livros escritos e em tradições não escritas, que os Apóstolos receberam da boca de Cristo e que foram transmitidas de mão em mão, por obra do Espírito Santo, até chegar a nós. Esta assembléia segue o exemplo dos padres ortodoxos ao reconhecer e venerar com a mesma piedade e reverência todos os livros do Antigo e do Novo Testamento – pois o único Deus é o autor de ambos – juntamente com as tradições que se referem à fé e aos costumes. Pois elas procedem da boca de Cristo ou foram inspiradas pelo Espírito Santo e conservadas na Igreja católica através de uma tradição ininterrupta. E por isso houve por bem inserir neste decreto um catálogo de livros sagrados, para que fique bem assente e não haja a menor sombra de dúvida acerca dos mesmos livros por este sínodo”. (Grifo nosso).

Naquele conclave palco de tão grande dissidência, ao qual assistiram apenas quarenta e nove bispos, houve muita confusão em razão das acaloradas divergências de opiniões sobre títulos diversos, compendiados em nada menos que dezesseis capítulos e trinta e três decretos, seguidos de anátemas e maldições que foram lançadas sobre aqueles que não os aceitassem como matéria de fé, votados em meio a uma grande algazarra prelatícia. Como de costume, franciscanos e dominicanos travaram renhidíssima luta corporal, dois deles, venerados prelados numa demonstração de zelo quanto a suas idéias particulares, se engalfinharam e se estapeando mutuamente com ferocidade, agarrando-se às barbas um do outro, motivando Carlos V ameaçar os beligerantes de lançá-los na prisão, se não se comportassem no recinto dignamente. E, em meio a toda essa algazarra prelatícia, a Igreja de Roma afirma que, mesmo assim, houve “a assistência do Espírito Santo”! Pasmem!

Diante deste quadro de tão evidente amalgamação de opiniões dos prelados conciliares ali reunidos, foi necessário redigir os decretos por uma forma anfibológica. Segue-se ao decreto tridentino uma lista de livros na qual se acham incluídos os seguintes livros apócrifos: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e a última parte dos livros de Ester e Daniel, ou seja, desde o versículo 4 do capítulo 10 de Ester, até ao final do capítulo 16, e os capítulos 13 e 14 de Daniel, que tratam da história de Susana, a história de Bel, o episódio do Dragão e o cântico dos três meninos.

Observando o que acima foi exposto, vemos que os “padres ortodoxos” da Igreja Católica, por uma “tradição ininterrupta”, recebiam os livros ‘apócrifos’ e os outros livros citados no decreto, “com a mesma piedade e reverência”.

Isso não foi verdade! Pois o assunto que os “padres ortodoxos” e um grande número de teólogos, no seio da própria Igreja Católica hajam concordado alguma vez, “com a mesma piedade e reverência” foi exatamente o de banir do sagrado cânon da Escritura os livros apócrifos!

A Escritura Sagrada oficial da Igreja Católica Romana é a Vulgata, traduzida para o latim por Jerônimo (383-405 d.C.), um dos Pais da Igreja do século V. O Antigo Testamento, exceto o livro de Salmos, foi traduzido do texto hebraico, e o Novo Testamento, do texto grego. Ao final do século V, o conhecimento destas duas línguas havia descido a nível tão lastimável e, onde as Sagradas Escrituras eram lidas, usava-se a Vulgata latina, ainda que os prelados do Concílio de Trento reconhecessem que a tradução de Jerônimo não era de todo perfeita e, por esta razão, desejassem fazer uma nova tradução da Bíblia Sagrada. Este trabalho exigia esforço imenso e, além disso, os Reformadores Protestantes firmavam seus argumentos nos textos hebraico e grego, línguas originais da Bíblia Sagrada. Como havia urgência dos integrantes do Concílio de Trento reconhecer um texto oficial, para o qual se pudesse apelar, sempre que necessário, o texto escolhido foi o da milenar tradução de Jerônimo, o qual foi considerado padrão da Igreja de Roma. Vale salientar que a lista dos livros canônicos do Antigo e Novo Testamentos, dada por Jerônimo, não incluía a princípio os apócrifos, cuja inspiração divina ele se recusou aceitar. Mas mesmo assim o Concílio de Trento concluiu: “Se alguém não receber como canônicos todos estes livros, no todo ou em parte, como são lidos ordinariamente na Igreja Católica, e como estão contidos na antiga edição da Vulgata latina, ou, ainda, consciente e deliberadamente, desprezar as tradições aqui inseridas, seja anátema”.