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Por quem os sinos dobram

Há algum tempo comprei num sebo paulistano, do qual sou cliente há anos, um exemplar da primeira edição brasileira do clássico de Ernest Hemingway Por quem os sinos dobram. Esse texto de Hemingway tornou-se um épico da Guerra Civil Espanhola e compõem o conjunto das obras essenciais do escrito estadosunidense, junto com O velho e o mar, O sol também se levanta e Adeus às armas.

Em verdade a primeira coisa que me chamou a atenção nessa edição, de 1941 da Companhia Editora Nacional, foi o comentário na orelha do livro escrito por ninguém menos do que Monteiro Lobato. Que Lobato estava longe de ser um liberal isso não é novidade, haja visto as discussões dele com os membros do movimento modernista paulista na década de 1920, mas daí até inverter completamente o sentido de uma obra vai uma longa distância. No seu texto de apresentação, Lobato descreve a obra de Hemingway como um “libelo contra o absurdo do comunismo”, “contra a brutalidade dos republicanos na Guerra Civil Espanhola”.

Para quem conhece a obra ou a vida de Hemingway sabe que isso é absolutamente improvável. Tanto o livro é uma sequência de cenas horrorizantes da guerra civil - de um lado e de outro - quanto o próprio Hemingway era um libertário, o qual lutou nas famosas “Brigadas Internacionais” durante o conflito.

Não que gostasse dos comunistas - pelo horror a burocracia e ao controle do Estado que tinha -, mas entre os republicanos, dentre os quais um significativo grupo de comunistas, e a ameaça fascista o escritor jamais titubeou.

O historiador militar inglês Anthony Beevor, em seu livro A Batalha pela Espanha, descreve Hemingway como um verdadeiro fanfarrão, um aventureiro, mas honesto, sincero, diferente de outros, como o escritor francês André Maurois, que depois se bandeou para o lado fascista. O fato é que a montanha de celebridades que integraram as Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil Espanhola (batalhões formados por voluntários de diversos países simpatizantes da causa republicana) mais fizeram propaganda do que colaboraram em armas. Saint-Exupery, Pablo Neruda, Hemingway, John dos Passos, entre tantos, estiveram nas linhas de combate, mas, em geral, quando não havia combate. Na realidade a grande maioria de voluntários, formada por trabalhadores, ficava profundamente irada com as incursões quase turísticas do grupo dos “famosos” pelas trincheiras.

De qualquer modo a obra de Hemingway é definitiva e um retrato bastante fiel do conflito - confirmado pelo texto de Beevor (cujo livro também é excelente). Completando este ano 60 anos do término do conflito, com a derrota dos republicanos (quase simultaneamente ao início da II GUerra Mundial), ocorre uma série de eventos para lembrar uma vergonhosa página da história européia, quando os governos ditos democráticos (Inglaterra, França), por medo de um governo popular (o Republicano), deixaram uma nação cair na penunbra da ditadura franquista durante décadas. O mais impressionante é que os que apoiaram Franco, Hitler e Mussolini, cairam, mas ele se manteve no poder até sua morte.

Além desses dois livros vale a pena assistir a dois filmes fundamentais que tratam direta ou indiretamente a respeito da Guerra Civil Espanhola: O Labirinto do Fauno e Ana e os lobos, os dois excelentes.

Neles, e nos livros, a cena de do Bombardeio Nazista a cidade basca de Guernica, retratada por Pablo Picasso, ganha a dimensão exata da tragédia e do horror que foi a Guerra Civil Espanhola.


Fonte: http://colunistas.ig.com.br/indianasilv ... os-dobram/