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Órgãos de controle perseguem games violentos

’Manhunt 2’ chega às lojas dos EUA; jogo teve conteúdo original 'amenizado'.
Violência em games é considerada ‘mais nociva’ que a de filmes e livros.


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'Manhunt 2' teve cenas cortadas para ser aprovado pelos órgãos de classificação


Hoje em dia, ninguém duvida que a violência nos videogames seja considerada mais nociva do que uma violência semelhante contida em mídias mais tradicionais. Basta observar o teor da divulgação de "Halo 3", a série de ficção científica líder de vendas que se assemelha ao "Guerra nas Estrelas" em termos de caos e destruição de mentirinha.


Na grande imprensa, "Halo" costuma ser descrito como um "violento épico espacial" ou um "jogo violento, do tipo de sair atirando em todo mundo". Mas quando foi a última vez que "Guerra nas Estrelas" foi descrito como "o violento filme espacial" de George Lucas? Na mesma linha de raciocínio, quando foi a última vez que alguém se referiu a "Família Soprano" como um "seriado de televisão do tipo de sair atirando em todo mundo", que aliás, até certo ponto, não deixa de ser mesmo?


A resposta a ambas as perguntas é basicamente nunca. Ocorre que a cultura norte-americana ficou tão habituada à violência na mídia corrente que até as manifestações mais abomináveis de brutalidade passam praticamente batido.


Os videogames não conseguiram essa isenção. Ao mesmo tempo em que um respeitado livro, que em breve será transformado em filme -- "O Caçador de Pipas" -- é aclamado, mesmo que suas páginas descrevam atos de sodomia infantil, há toda uma indústria caseira unida para denunciar os tiroteios e esfaqueamentos dos videogames. Não importa que pesquisas tenham revelado que o jogador típico está na casa dos vinte, quase trinta anos de idade, ou que o Entertainment Software Rating Board (ESRB, órgão norte-americano responsável pela classificação etária dos jogos) tenha se provado no mínimo tão cauteloso na rotulagem dos jogos quanto a Motion Picture Association of America o fez na classificação de filmes.

Somente para adultos

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Daniel Lamb, à direita, é o protagonista que tenta sobreviver lutando


Vejamos, por exemplo, "Manhunt 2" (PS2, PSP, Wii), lançado nesta quarta (31) nos Estados Unidos pela Rockstar Games e sua matriz, a Take-Two Interactive Software. "Manhunt 2" é um jogo para adultos, com temática de sobrevivência e recheado de terror bárbaro. A sinopse na parte de trás da caixa consegue transmitir o tom do que se trata o jogo de forma bem clara:


"Gritos histéricos ecoam pelo sanatório úmido e insalubre que o enclausurou durante os últimos seis anos", diz o resumo. "Você abre os olhos. Um corpo de branco despenca no chão por entre suas mãos trêmulas. Uma seringa ensangüentada escapa do seu braço. Ondas de pânico e paranóia o atormentam. Você não faz idéia de quem seja ou de como chegou ali. A porta da sua cela está aberta. Uma escolha. Uma chance. Eles tomaram sua vida. É hora de pegá-la de volta."


Meses atrás, a versão original de "Manhunt 2" foi totalmente proibida pelo conselho de classificação de softwares dos Estados Unidos e por um órgão governamental de controle de mídia da Grã-Bretanha. Alegação: o jogo é violento demais. As principais redes varejistas dos Estados Unidos se recusam a manter em estoque jogos sem classificação e jogos classificados como Exclusivos para Adultos, às vezes entrando em contradição com as próprias políticas mais complacentes que abrem espaço nas prateleiras para filmes em DVD sem classificação. A Sony, fabricante do PlayStation 2 e do PSP, e a Nintendo, fabricante do Wii, sequer permitem que jogos Exclusivos para Adultos sejam produzidos para seus consoles.


A versão editada que chega ao mercado com a classificação "M", equivalente a "Maior de idade", (ou seja, a faixa dos 17 anos ou mais) ao que tudo indica, manteve pelo menos 99% do conteúdo original. Uma cena que mostrava um par de alicates sendo aplicados à genitália masculina foi cortada. Em linhas gerais, a Rockstar deixou embaçadas as animações de execução que o jogador pode invocar quando assassina guardas malvados e psicopatas que ficam no caminho entre a liberdade e o protagonista do jogo, o tal do Daniel Lamb.

Simplesmente terror

"Manhunt 2", sem dúvida, não é para quem tem estômago fraco, mas não é mais violento que os chamados filmes pornô-tortura, como as seqüências dos filmes "O Albergue" e "Jogos Mortais" -- "Jogos Mortais 4" foi classificado no Brasil como "recomendado para maiores de 18 anos". O governo britânico mantém a proibição do jogo, mas nos Estados Unidos os contratempos de "Manhunt" provavelmente foram favoráveis ao setor, já que permitiram que o Entertainment Software Rating Board e sua presidente, Patricia Vance, demonstrassem que eles podem confrontar as grandes produtoras.


"Existem diversas maneiras positivas de ajudar a assegurar que as crianças utilizem jogos apropriados para sua idade, mas o fato é que é função dos pais fazer as escolhas para os próprios filhos", declarou Vance anunciando a nova classificação do jogo para "M". "O ESRB, as lojas e os membros do setor fornecem às famílias as ferramentas e as informações para ajudá-las nessa tarefa."


Obviamente, a polêmica ajudou a Rockstar. A imagem de marketing da empresa é dos bad boys artísticos do mundo dos jogos. "Manhunt 2" recebeu publicidade gratuita e atenção da mídia de que jamais poderia ter usufruído se não fosse pela colaboração supostamente involuntária dos órgãos de classificação etária e dos auto-proclamados guardiões da mídia.


"O mais importante é que não tivemos que cortar a história e precisávamos manter intactos o espírito e a vibração do jogo", disse Jeronimo Barrera, vice-presidente de desenvolvimento da Rockstar, em uma entrevista na sexta-feira no escritório da empresa em Manhattan. "Mas é evidente, porém, que isso é frustrante porque não precisaríamos enfrentar tudo isso se estivéssemos trabalhando em outra mídia como filmes ou quadrinhos para adultos. Nós nos propusemos a fazer um jogo de terror e sabíamos que ele seria violento, porém não mais violento do que tudo a que os adultos já têm acesso."


A experiência provavelmente foi boa até para as fabricantes de consoles, como a Nintendo. O Wii tornou-se popular entre crianças e famílias, e até entre grupos mais velhos, mas ainda faltava ao sistema conquistar a importante fatia do público jovem masculino. "Manhunt 2" ajudará nessa meta.


Quanto ao jogo em si, parece bastante objetivo. Demora cerca de 20 horas para ser concluído e a maior parte do jogo se concentra em mover Lamb, o cientista, por prisões, prostíbulos e casas mal-assombradas sem se deixar ser morto pelas forças que o "perseguem". No final das contas, é bastante provável que o jogo acabe por comprovar que é um entretenimento tão violento e efêmero quanto algum filme sanguinolento que vimos por aí.

Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia ... ENTOS.html