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Onde a nova história da humanidade nas Américas está sendo e

A arqueologia é uma ciência que depende muito da capacidade interpretativa dos arqueólogos. Essa capacidade, por sua vez, depende da confiabilidade dos dados coletados durante uma escavação.

Grande parte das pessoas imagina que a única coisa que interessa a um arqueólogo durante uma pesquisa são os objetos resgatados durante as escavações, mas isso - hoje - não é mais uma verdade. Através do uso de técnicas modernas de diversas ciências informações cruciais são passíveis de serem obtidas.

Um exemplo que acho genial é a determinação das idade, sexo e época de abate de certos animais selvagens - caçados por homens de sete ou oito mil anos atrás - através da análise da dentição dos mesmos, encontradas em sítios arqueológicos. Alguns tipos de gamos possuem dentes que mudam seu esmalte ao longo do ano, quando morrem esse processo acaba. Assim é possível saber em que época o animal foi caçado e cruzando com dados de vários outros determinar as épocas preferidas de caça de nossos ancestrais.

Técnicas engenhosas como essa são empregadas também para o estudo dos solos, encontrando os tipos vegetais preferidos, ou do revestimento formado em foices de pedra pelo corte continuo de ramos de cereais. Através desses procedimentos é possível se determinar qual era a dieta das pessoas que usaram esses objetos ou viveram em certa região.

Por isso, a cada geração de arqueólogos, surgem técnicas que permitem melhores interpretações dos achados arqueológicos e uma melhor compreensão da vida de grupos humanos que desapareceram há milhares de anos.

A arqueologia nas Américas ficou durante muito tempo dominada pelo estudo das grandes civilizações pré-colombianas, como os aztecas, maias e incas. O estudo da história humana nas Américas antes do surgimento desses impérios demorou bem mais tempo para se estabelecer.

Ainda hoje o grande desafio da arqueologia americana é determinar quando, aproximadamente, a espécie humana aportou no continente. O segundo grande desafio é conseguir mapear a expansão e a ocupação das Américas depois da chegada.

Até alguns anos dominava o cenário o chamado “Dogma de Clóvis”. Clóvis é uma cidade mexicana na qual se encontrou o mais antigo registro humano datado, algo perto dos 11.500 anos de idade. Como os materiais arqueológicos necessitam ser datados e isso nem sempre é possível, Clóvis e seus 11.500 anos foram ficando.

Isso gerou uma luta incansável da arqueologia nos países da América do Sul e central, e mesmo de grupos dos EUA, para derrubar a datação de 11.500 anos.

Surgiram datações estimadas mais antigas rapidamente, mas o problema esbarrava sempre na questão da datação definitiva, o que significa ter a sorte de encontrar materiais orgânicos que permitam os procedimentos de datação por Carbono 14 ou algum outro método. Essa sorte nem sempre acompanha os arqueólogos: as vezes o material encontrado é pouco, as vezes está contaminado, as vezes fora de contexto, impossibilitando a associação direta entre o material datável e o restante do sítio arqueológico.

Mas mesmo quando uma fogueira é datada é necessário ter certeza de que ela foi produzida pela mão humana e não por um raio ou algum outro fenômeno natural. Para piorar a situação, quanto mais antigos os registros mais difícil é se encontrar essas situações ideais.

Por isso as datações obtidas pela arqueóloga Niede Guidon na Serra da Capivara no Piauí, e que indicariam ocupações humanas de mais de 40.000, são combatidas violentamente. Elas são tão rústicas, as fogueiras, que é impossível saber com certeza absoluta se foram feitas por humanos ou não.

Desse modo existem os verdadeiros “fronts” da luta pela escrita da história da ocupação das Américas, regiões nas quais equipes de arqueólogos se debruçam durante anos para tentar trazer luz a estas questões.

Uma dessas regiões é o litoral do Pacífico, no Chile o no Perú. Essa região é importante pois pode trazer novas informações sobre a hipótese de que a América não só foi colonizada por diversos grupos, em levas sucesivas, como também foi de “modos” diversos. Uma das teses insiste que homens das ilhas do Pacífico teriam conseguido chegar às Américas em balsas. Se isso realmente aconteceu, ou se foi o inverso - homens das Américas ocupando as ilhas - a resposta deve estar no litoral do Pacífico.

Outro front continua sendo a fronteira norte, a região do Alaska, por onde teriam cehgado as levas de humanos através do estreito de Bering, nas diversas glaciações que congelavam a passagem. Se o caminho dos humanos pelas Américas começou com uma longa marcha a pé a partir da Ásia os vestígios mais antigos devem estar por lá.

No centro-oeste do Brasil, na região do Mato Grosso, encontra-se outra linha de batalha. O centro do continente - já sabemos - foi uma região de trânsito de povos diversos, que foram se espalhando e se cruzando ao longo dos milênios. É lá que provavelmente teremos uma idéia melhor da formação dos povos americanos modernos, os indígenas que estavam aqui quando os colonizadores europeus chegaram.

Na Amazônia está a grande frente da cultura tupi, uma das mais extensas das Américas. Foi lá, provavelmente, que o amendoin e a mandioca foram domesticados, tornando-se parte essencial da alimentação dos povos americanos. Também entre a Amazônia e os Andes resta a linha de batalha na qual se discute de onde o milho veio, e como foi domesticado e se difundiu.

Nas Minas Gerais, em Lagoa Santa, há o front liderado pelo antropólogo físico Walter Neves, um dos mais terríveis adversários de “Clóvis”. A famosa “Luzia” (uma brincadeira “brasileira” com o famoso esqueleto de “Lucy” encontrado na África e que, até o momento, é o mais antigo) é uma das provas mais contundentes que existem de que a colonização nas Américas começou antes dos 11.500 anos e que não foi realizada apenas por uma matriz ásiática. Luzia tem claros traços negróides ao contrário de boa parte dos povos americanos que é de origem mongolóide.

Em cada uma dessas regiões há os “generais”, arqueólogos experimentados - como Walter Neves, Eduardo Neves, Denis Vialou, Niede Guidon, Tom Dillehey - que a cada temporada de escavação levam seus exércitos de pesquisadores, estagiários, para passar semanas, as vezes meses, lutando para obter resultados cada vez mais reveladores. Esses arqueólogos compõem um grupo restrito que discutem continuamente, mas raramente concordam em muitos pontos, dada a complexidade das situações a ausência de dados definitivos.

Assim, em cada uma desses “teatros de batalha” a história humana nas Américas, antes que o continente tivesse esse nome, continua a ser escrita, tal como um recordista olímpico, lutando para “baixar resultados” e chegar cada vez mais próximo da verdade.


Fonte: http://colunistas.ig.com.br/indianasilv ... o-escrita/