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Obama vira símbolo de esperança no Quênia

Quando Barack Obama venceu as eleições, o Quênia foi o único país a decretar feriado nacional. O Jornal Hoje foi até a África e mostra a imensa expectativa criada no continente em relação a Obama.



No palco de um teatro no Quênia, um ator interpreta um discurso do novo presidente americano, Barack Obama:

“Nossa concepção sobre as pessoas de diferentes raças mudou. E começamos a julgar as pessoas não pela cor da pele, mas de acordo com seu caráter. Por isso, podemos fazer melhor. Sim, nós podemos”.

Não importa que o rosto do ator é mais jovem e mais cheio: para o público do musical em cartaz no Quênia, o que importa é imaginar que ele é Barack Obama, filho de queniano e presidente dos Estados Unidos da Ámérica.

Depois da temporada na capital, Nairóbi, o musical vai partir numa turnê pelo interior. E o público e a imprensa querem mais, segundo o autor e diretor do musical baseado na vida do líder americano. “Virou febre”, diz o diretor da peça. “Para nós, africanos, tudo o que você é vem do seu pai. O pai de Obama era queniano. Portanto, ele é queniano!”.

Além do orgulho, explica o autor do musical, a vitória dele traz uma mensagem de esperança, paz união, progresso e possibilidades – trocando em miúdos, tudo o que o país precisa.

Desde a independência da Inglaterra, quatro décadas atrás, o Quênia luta contra a pobreza, as divisões tribais e a corrupção. Há apenas um ano, o país era varrido pela violência política e étnica.

Hoje, a idéia de ter um meio-patrício na presidência dos Estados Unidos vende esperança – e também chaveiros e penduricalhos. Nas engarrafadas ruas de Nairóbi, o líder mais poderoso do mundo está estampado até matatus, as lotações que vivem... superlotadas.

O cantor Makadem tem outro objetivo: o cantor quer ajudar Obama. Um dos mais conhecidos artistas do Quênia, ele fez um clipe antes da eleição pedindo para os americanos votarem em Obama. É impossível saber quantos votos o clipe de Makadem conseguiu, mas o filme recebeu mais de 160 mil acessos num site de vídeos da Internet.

Agora, Makadem gravou outra canção, para falar da inspiração que um queniano na Casa Branca traz para a África. “Fiz a música com a frase do discurso de Obama, ‘Sim, nós podemos’", contou o cantor. “Acho que isso vale para nós, africanos. Se queremos nos desenvolver como o Brasil, a Argentina, o Japão e a Europa, temos de pensar positivo e acabar com os políticos que não fazem nada”.

Numa universidade de Nairóbi, uma placa avisa que a instituição é um lugar livre da praga local: a corrupção. Uma estudante comemora a eleição de Obama (“Ele é nosso primo!”, brinca), mas está consciente. “Ele não virá da América melhorar nosso sistema de saúde, habitação ou saneamento”, diz a moça. “Mas, sendo queniano, pode aumentar nosso comércio e o turismo”.

“Eu espero que Obama tenha uma influência positiva nos líderes africanos”, diz outro universitário. “Espeque que ele faça pressão para que eles sejam austeros, responsáveis pelos cidadãos”.

Mas não peça otimismo ao velho professor de Engenharia na universidade. Ele está cético. “Há muita expectativa, mas é tudo furado”, ele diz. “Pode ser que Obama melhore as relações com a África, mas vamos esperar para ver como a coisa vai funcionar”.

O embaixador americano em Nairóbi responde ao questionamento do professor: “As coisas vão funcionar como funcionavam com Bush na presidência. O Quênia é um país importante para nós. Aqui, defendemos o fortalecimento da democracia, apoiamos as reformas e ajudamos a combater a Aids. Tenho certeza de que o novo presidente apóia os mesmos programas”, disse o diplomata.

Apesar da ponderação do embaixador, muitos quenianos esperam muito mais de Obama que de Bush. É o caso de uma dona de casa da periferia de Nairóbi que batizou a filha, nascida no dia seguinte ao da eleição, com o nome da primeira-dama americana: Michelle. Se fosse menino, seria Barack. “Estamos muito felizes com o sucesso dele”, diz a queniana. “Sabíamos que ele venceria. Alguns de nós acham que foi um milagre. Admiramos o esforço dele”.

Para os quenianos, é possível que o melhor a receber de Barack Obama seja o exemplo de superação – e a certeza de que “sim, é possível”, como no slogan de campanha de Obama.

Fonte: http://g1.globo.com/jornalhoje/0,,MUL96 ... UENIA.html