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O que é cultura?

O que é cultura?

Em 1997 estava eu metido com um promissor (01) grupo de autores literários na ainda bruxuleante internet brasileira e como eram muitos meus questionamentos, qualquer informação adicionada seria bem vinda. Criar, é meu nome.

Cochilava em frente da televisão quando uma reportagem da Globo assanhou meus instintos. Na chamada, prometia. O apresentador fazia na fria tela a pergunta “O que é cultura?” e antes dos comerciais chegarem, prometeu que iríamos saber.

Decepção. A reportagem entrevistou tipos, mostrou danças e comidas, o carnaval, o bumba-meu-boi, negros, índios, mestiços, orientais, caucasianos entre tantas outras coisas e gentes de norte a sul: do gaúcho dos pampas ao jangadeiro cearense. Mas não me disse o que é cultura.

Quando lemos que tal ou qual coisa “é da cultura daquele povo”, o sentido explicativo torna-se menos nublado, embora que ainda não o defina. Crocodilo Dundee lavou e estendeu suas roupas num luxuoso apartamento em Nova York. Para o público ao qual se destinava o filme, o roteirista incluiu a cena pelo impacto visual, pelo choque cultural.

Para a personagem, o feito é comum em seu habitat, estender roupas dentro de casa em dias chuvosos? Porque estava desalojado de seu ambiente natural, não ensejaria uma tomada ao pé da letra do ditado “em Roma, como os romanos”?

Quem fez a película não pensou num questionamento cultural, mas antes, num teor jocoso da cena. E jocosidade, é apenas uma das muitas facetas com que culturas diferentes se entreolham.

Talvez minha observação não corresponda ao mínimo da realidade por mim atribuída. Não importa. O que importa, é você saber que não é tão difícil notar comparações culturais nas coisas de nosso quotidiano, mais abundantes, em produções cinematográficas à farta pela televisão.

Saboreamos hoje com lauto prazer uma feijoada em almoços de inverno. Nem lembramos que suas origens estão nos descartes de suínos disputados pelos negros escravos junto aos cães e vermes da terra. Certamente, alguma senhorinha ou fidaldo deva ter sofrido com embrulhos no estômago ao ser notificado que daqueles restos os negros faziam comida.

E tendo a ser generoso nesse parágrafo, pois considero que seja um tipo superior de fidaldo (ou senhorinha), um que já não achasse os negros qual os animais, sem alma e nem guarida no dominante céu católico.

Culturas se entreolham com nojo, com medos e com horrores desde o período tribal da humanidade. E se matam por isso.

Não li Casa Grande e Senzala (Giberto Freyre) nem Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda) talvez por obediência a uma máxima raulseixista (“antes de ler o livro que o guru lhe deu, você tem que escrever o seu”), ou seja, quero viver minha própria experiência na evolução cultural brasileira sem influências, por mais próximas que as informações daqueles livros estejam da atualidade e de minhas próprias conclusões.

É como um quebra-cabeças, entende? Não tem graça sabê-lo montado.

Talvez com isso force um aprofundamento em quem vier a me acompanhar nesse blogue a também, um dia, descobrir seus caminhos baseados em suas descobertas, e não naquelas que algum guru lhe tenha dado a seguir.

Provavelmente enquanto estiver nisso pensando e escrevendo, as mutações estarão ocorrendo. Noutros tempos certamente não seria possível observar alguma mudança na sua contemporaneidade. Bem diferente de hoje, com a celeridade das comunicações.

Ademais e finalmente, sou aquele menino que desde os dez anos “vestia-se” com armaduras medievais e queria pensar como “pensava” a humanidade naquele período. Gosto dessa _______.

Mas afinal, o que é cultura?

Fonte: http://www.clubeletras.net/blog/cultura ... e-cultura/