•  
     

O acordo e seu mentor

A discussão em torno do Acordo Ortográfico continua na ordem do dia , embora, agora, só reste aceitá-lo. Ponto para a mudança que fez voltar a preocupação de escrever correto.

Sou favorável à unificação, até porque trabalhei ao lado de seu mentor, Antônio Houaiss, que a idealizou na década de 1980 e apresentou ao público lusófono a primeira versão no início de 1990.

Tive informações privilegiadas nos momentos iniciais de sua elaboração. Tinha sido formada, então, a Comissão Nacional para o Aperfeiçoamento da Língua Portuguesa, da qual eu fazia parte e Houaiss, sendo um dos membros, pedia opinião sobre as atitudes a tomar nas reuniões em Portugal, seguindo contudo apenas a sua própria.

A reforma atual é tímida, como muitos julgam, sobretudo em relação ao que foi planejado. O livro do mestre Houaiss, A Nova Ortografia da Língua Portuguesa, editado e publicado em 1990, pela Ática, traz o texto original. Seria uma reforma ampla (mas não geral e irrestrita), atingindo outros aspectos não contemplados hoje.

Os intelectuais portugueses não aceitaram, sentiram-se lesados com as mudanças e diziam que, representado por apenas um especialista, “ o Brasil passou-nos a perna”: o acordo era mortográfico. Não ia sobreviver. A língua portuguesa, para eles, é um patrimônio valioso sobre o qual não queriam perder o poder de decisão.

Mas Houaiss não desistiu do intento, apesar da recusa ao texto que já fora aprovado e divulgado. Do alto de sua sabedoria, descortinava horizontes mais amplos. A reforma não buscava facilitar a escrita do usuário e sim a imposição da língua portuguesa no plano internacional. Afinal, ela é a terceira língua mais falada do Ocidente e a sexta no mundo.

A dupla ortografia oficial, regida por uma lei portuguesa e outra brasileira, não lhe permitia ser adotada nos fóruns internacionais (tipo ONU, UNESCO). A Comunidade Europeia só aceita(va) a grafia no modelo luso. Livros editados em um país não eram aceitos em outro e nas escolas das ex-colônias de África, livro didático brasileiro não podia ser adotado. Foi pensando no papel político da Língua, buscando o status do português como língua de cultura, que a reforma encolheu até chegar a um denominador comum, aceito por ambas as partes, embora com muitos protestos lusos.

Agora, já oficializada, a nova ortografia se impõe como resultado do trabalho de um filólogo, ensaísta e diplomata que via longe e defendia o reconhecimento da nossa língua.

Houaiss foi o construtor das bases do acordo no século XX. Agora, no século XXI, o então presidente da Academia Brasileira de Letras, o pernambucano Marcos Vinícios Vilaça, assumiu a missão de implantar a nova ortografia e teve êxito. Emplacou a vitória final. Um outro pernambucano, o mais respeitado gramático da língua portuguesa na atualidade, Evanildo Bechara, codificou as mudanças, registrando-as no Dicionário da Academia Brasileira de Letras, recém-lançado. Todas as novas grafia, dos acentos ao uso do hífen (que, convenhamos, sempre foi de uso irracional e complicado e continua sendo) estão assim ao alcance do consulente.

A mudança atingiu apenas 0,5% de termos no português brasileiro e 1,7% dos termos no português europeu. Vale lembrar que muitos permanecem com grafia dupla. Foram uniformizados ortograficamente 98% dos termos da língua, o que já dá para considerá-la uma. Apenas 2% terão dupla grafia.

Não podemos esquecer que, na era da globalização, a erudição e a persistência de um homem, Houaiss, estão presente na luta da nossa língua/cultura para se impor no plano internacional.