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Morreu o gênio do xadrez Bobby Fischer

Morreu o gênio do xadrez Bobby Fischer

REYKJAVIK (AFP) — Bobby Fischer, que morreu nesta quinta-feira aos 64 anos, poderia ter sido o maior jogador de xadrez de todos os tempos, mas passou os últimos anos de sua vida em excêntrica reclusão.

O jogador nasceu nos Estados Unidos, mas morou na Islândia nos dois últimos anos, após passar oito meses atrás das grades no Japão, na mais recente reviravolta de uma vida que entrou em decadência após o momento de glória, alcançado aos 29 anos.

Fischer, criado no bairro nova-iorquino do Brooklyn, ocupou as manchetes ao redor do mundo quando tirou o título mundial da dominação soviética em 1972, derrotando o campeão Boris Spassky, em uma projeção da Guerra Fria no tabuleiro que ficou conhecida como a partida do século.

Na época, dizia-se que o americano possuía QI mais alto que Albert Einstein, e fazia exigências extravagantes durante as partidas.

Mas enquanto o mis-en-scène conferia a Fischer o status de celebridade - e muitas vezes o ajudava a irritar seus oponentes -, também o alienava de tudo que não passasse por um pequeno grupo de amigos e entusiastas do xadrez.

Apesar do pedido pessoal de Henry Kissinger para que jogasse por seu país em 1972, Fischer afirmava desprezar os Estados Unidos.

Apesar da mãe judia, o jogador era assumidamente anti-semita, usando transmissões de estações de rádio-amador para acusar os judeus de tudo que se possa imaginar, começando por seus próprios problemas legais até uma suposta conspiração para exterminar os elefantes.

Preso, ficou noivo da presidente da Associação Japonesa de Xadrez, Miyoko Watai, mas ela mesma revelou que seu marido odiava os japoneses e o Japão.

O retorno de Fischer aos holofotes começou em 11 de setembro de 2001, quando ligou para uma rádio filipina para saudar "as maravilhosas notícias" dos ataques terroristas.

"Só podemos achar que seus comentários sobre o 11 de setembro deixaram os EUA tão irados que a ligação caiu'", contou David Edmonds, co-autor de um livro sobre a partida de 72, "A guerra de Bobby Fischer" ("Bobby Fischer Goes to War").

Na ocasião do 11 de setembro, Fischer declarou ainda que "ninguém fez mais sozinho pelos Estados Unidos do que eu". Segundo ele, sua façanha fez os Estados Unidos parecer "um país intelectual".

"Mas agora eu não sou mais útil. Veja, a Guerra Fria acabou e agora eles querem me ferrar, pegar tudo o que eu tenho, me prender", disse.

Na "partida do século", na Islândia, o jogador americano tinha ataques de fúria por causa das câmeras e do público, mas conseguiu quebrar uma hegemonia de 24 anos dos soviéticos no campeonato mundial de xadrez.

"Por dois anos de sua vida ele dominou completa e incontestavelmente o xadrez como ninguém havia feito antes", explica Edmonds.

Fischer, que praticava xadrez se trancando em um quarto por dias jogando sozinho, se recusou a jogar após sua vitória sobre Boris Spassky, e perdeu o título em 1975.

A paranóia de Fishcer aumentou em 1981, quando sua aparência desleixada fez com que fosse confundido com um suspeito de roubo de bancos na Califórnia. Em outra entrevista a uma rádio filipina, o jogador acusou a mídia de tentar "envenenar o público contra mim".

"Eles usam constantemente as palavras excêntrico, excêntrico, esquisito", reclamou. "Eu sou chato. Eu sou chato!".

Fischer voltou ao xadrez em 1992, com uma partida contra Spassky na Ioguslávia, em plena guerra dos Bálcãs.

Em uma coletiva de imprensa, Fischer desdenhou um aviso feito pelo governo americano de que ele estaria quebrando as sanções impostas ao país e venceu o russo mais uma vez, levando mais de três milhões de dólares como prêmio, sobre os quais disse que jamais pagaria um centavo de imposto.

Fischer nunca mais pisou nos Estados Unidos desde então, onde foi condenado a 10 anos de prisão por ter jogado a tal partida.

Em 13 de julho de 2004, ele foi preso no aeroporto japonês de Narita por viajar com um passaporte que havia sido cancelado por Washington.

Durante meses o governo japonês ponderou sobre mandá-lo para os EUA, quando em 2005 a Islândia veio em seu socorro e lhe concedeu a cidadania, como retribuição por ter tornado o país e o xadrez famosos em 1972.


http://afp.google.com/article/ALeqM5gGm ... 27HtSTdWag