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Mágicos ajudam a decifrar ilusões no cérebro

Ilusionistas participaram do simpósio Mágica da Consciência, nos EUA.
Limitação da percepção pela magia cria ilusões na mente.


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Magia ajuda a decifrar as ilusões criadas pelo cérebro.


O motivo pelo qual ele me escolheu na platéia, insistiu Apollo Robbins, foi porque eu parecia envolvido, balançando a cabeça e estabelecendo contato visual enquanto ele e outros mágicos explicavam os macetes da profissão. Acreditei nele quando me disse mais tarde, durante o jantar no Venetian, que ele não havia percebido meu crachá que me identificava como redator da área de ciências. Mas todos acreditam em Apollo, quando ele habilmente remove sua carteira e as chaves do carro e desabotoa o seu relógio.

Era domingo à noite em Las Vegas, onde há alguns meses a Associação de Estudo Científico da Consciência realizava seu encontro anual no Imperial Palace Hotel. O último encontro da organização havia acontecido nos arredores tranqüilos de Oxford, mas Las Vegas, a cidade das ilusões, onde a Estátua da Liberdade convive com Camelot na Esfinge, acabou sendo o local perfeito.

Depois de dois dias de apresentações de cientistas e filósofos especulando como a mente interpreta e confunde a realidade, escutamos as palestras dos profissionais: James (O Extraordinário) Randi, Johnny Thompson (O Grande Tomsoni), Mac King e Teller, mágicos que intuitivamente aprenderam a dominar algumas das lições aprendidas em laboratório sobre os limites da cognição e da atenção.

"Não era apenas um grupo de artistas conhecidos", disse Susana Martinez-Conde, cientista do Instituto Barrow de Neurologia, em Phoenix, que estuda ilusões de ótica e o que elas revelam sobre o cérebro. "Foram criteriosamente selecionados devido ao seu interesse específico nos princípios cognitivos por trás da mágica".

Ela e Stephen Macknik, também pesquisador do Barrow, organizaram o simpósio, apropriadamente denominado a Mágica da Consciência.

Apollo, com os olhos esticados e o arco de sua mão, desviou minha atenção como um holofote, de modo que sempre apontava na direção errada. Quando ele parecia alcançar meu bolso esquerdo ele estava pegando algo do direito. No final do número, o público aplaudiu e ele devolveu minha caneta, alguns recibos amassados e cédulas de dinheiro, e meu gravador digital de áudio, que ficou ligado o tempo todo. Não havia percebido que estava sem meu relógio até que ele mesmo o tirou do próprio pulso.

"Ele é misterioso", Teller me disse depois enquanto se apressava para o show da noite com Penn no cassino Rio.




Limitação da percepção
Um tema recorrente na psicologia experimental é a limitação da percepção: como tão pouco apelo sensorial chega à consciência. No início do dia, antes do show de mágica, um neurocientista havia demonstrado um fenômeno denominado cegueira por desatenção com um vídeo realizado pelo Laboratório de Cognição Visual da Universidade de Illinois.

No vídeo, seis homens e mulheres, metade com camisetas brancas e metade com pretas, estão arremessando algumas bolas de basquete. Os espectadores são solicitados a contar quantas vezes os membros do, digamos, time branco, conseguem concluir um passe, evitando que o time adversário pegue a bola. Segui obedientemente as instruções e fiquei surpreso quando passados 15 segundos de jogo, gargalhadas tomaram conta do público. Só quando assisti pela segunda vez eu vi uma pessoa vestida de gorila passando no meio dos times. (O vídeo está disponível em viscog.beckman.uiuc.edu/grafs/demos/15.html.)

Sigilosos como eles são a respeito dos detalhes, os mágicos estavam tão ansiosos quanto os cientistas no momento de abordar as ilusões cognitivas disfarçadas de mágica: disfarçando uma ação como outra ação, sugerindo dados que não existem, aproveitando o modo como o cérebro preenche lacunas, fazendo suposições, como explica o Extraordinário Randi, e fazendo-as parecer fatos.

Soando mais como professor do que como comediante e mágico, Teller descreveu como um bom mágico explora a compulsão humana por descobrir padrões e impô-los quando eles na verdade não existem.

"Na vida real, você vê uma coisa repetidas vezes, estuda isso e aos poucos identifica um padrão", disse ele enquanto caminhava pelo palco segurando um balde de latão na mão esquerda. "Se fizer o mesmo diante de um mágico, pode ser um grande erro".

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Teller, o mágico, durante apresentação aos cientistas.


Retirando uma moeda após a outra do cabelo, ele as deixou cair no balde. Logo que o público estava começando a acompanhar, de alguma forma ele estava escondendo as moedas entre os dedos, ele mostrou a palma vazia e deixou cair mais uma moeda e, em seguida, pegou outra moeda do cabelo branco de um senhor. Para o clímax da apresentação, Teller, com primor, retirou os óculos de um espectador, colocou-os no balde e mais duas moedas caíram.

Quando ele refez o truque pela segunda vez, anotando cada etapa, vimos como fomos conduzidos a desvincular causa e efeito, a formar uma falsa hipótese após a outra. Às vezes as moedas saíam da mão direita e às vezes da esquerda, escondidas sob os dedos que seguravam o balde.

Ele nos deixou a sua definição de mágica: "o vínculo cênico de uma causa com um efeito que não possui fundamento na realidade física, mas que, em nosso coração, possui".

Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0, ... 03,00.html