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JavaOne 2009: avanço tecnológico desafia formação acadêmica

Mesa redonda com professores de Ciências da Computação mostra que geração Y está além dos atuais métodos de ensino.

Um dos painéis realizados durante o JavaOne 2009 nesta quinta-feira (04/06) deveria apresentar as habilidades dos profissionais de desenvolvimento do século 21. Deveria. O que se mostrou foi uma realidade em que essas habilidades já estão presentes - a chamada geração Y já está na faculdade - e onde professores e instituições de ensino enfrentam dificuldades, muitas, para tornarem-se interessantes a esses jovens.

De um lado estão as características básicas desta geração, válidas para estudantes de qualquer área: multifunção, extremamente contestadora, nativa da internet e afeita à colaboração. Lin Lee, vice-presidente de comunidades globais da Sun, lembra que, em se tratando de futuros programadores, essas características se acentuam. "A internet é um território aberto, e transformou-se na escolha lógica dos programadores, que graças às comunidades de código aberto encontram ali tudo o que precisam", diz.

Essa escolha tornou-se um tormento para os professores da área de tecnologia da informação, que encontram pela frente o desafio de tornar o ensino de computação (incluindo programação) tão atrativo quanto a internet.

Do debate participaram três professores: Rom Feria, professor-assistente da Universidade das Filipinas; Barry Burd, professor da Universidade de Drew (EUA) e Wanda Dann, professora de química e, quando estudante na Carnegie Mellow, coordenadora da equipe que criou o Alice, software educacional que ensina programação a jovens em ambientes 3D.

Os desafios começam pela atração: como manter interessados alunos que hoje encontram ferramentas e ambientes de desenvolvimento gratuitos na internet? Não há uma única resposta, mas cada um procura seu próprio meio. "Nossa função hoje não é ensinar, mas ajudar os alunos a serem capazes de pensar, resolver problemas e serem criativos, como farão no mercado de trabalho", avalia Wanda.

Para isso, muitos deles têm de quebrar paradigmas do passado - e aprender como estes jovens trabalham de forma colaborativa é um deles. Nas Filipinas, por exemplo, Feria pediu que seus alunos criassem um programa. Pouco tempo depois, um grupo já havia terminado e, quando os alunos foram questionados porque ainda não haviam entregue o trabalho, disseram estar esperando a resposta, via celular, de um amigo que estava testando o software.

"A comunidade acadêmica precisa absorver os princípios da colaboração e aprender que a internet é o que eram os tradicionais livros de referência", observa o professor. Wanda completa, dizendo que, hoje, a função do professor é ajudar os alunos a identificar o que é relevante na internet, deixando o resto por conta deles.

Outra dificuldade citada durante o debate foi a velocidade com que as tecnologias evoluem e a incapacidade de professores e instituições de ensino em acompanhá-las. Wanda lecionou química por anos, e que durante esse período, os livros e as anotações que usou foram praticamente os mesmos. "Hoje eu tenho que me atualizar mensalmente, e as anotações que faço em um semestre não me servem mais no seguinte".

A velocidade leva também à priorização do conteúdo a ser apresentado aos alunos. Questionado sobre o ensino de temas como práticas de segurança no desenvolvimento de software e programação para processamento quad-core, relevantes no mercado de trabalho mas pouco vistos nas universidades, Barry Burd foi sincero. "Há muito mais coisas que não temos tempo de ensinar do que coisas que temos tempo de ensinar", diz, completando: "devemos ensinar práticas de segurança? Ótimo. É só nos dizer o que deve sair do currículo".

Wanda sugere que a área de computação deve tirar lições das matérias clássicas, como gramática e matemática. Ela lembra que essas matérias são ensinadas desde os primeiros anos da vida escolar e que os alunos chegam à universidade sabendo escrever e fazer contas. Com a onipresença da internet, diz ela, talvez fosse o momento de se pensar em incluir aulas de computação, ou programação, já no ensino médio.

Os desafios estão presentes, mas há um ponto de convergência. Todos concordaram que, por mais que evoluam a tecnologia, a internet e os meios de colaboração, estes jamais substituirão os professores. O que é preciso é que as instituições de ensino e professores se adaptem, e aí o atraso é global.

Fonte: http://computerworld.uol.com.br/carreir ... academica/