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Internet, Produtividade e Vida Social

Internet, Produtividade e Vida Social

Diz o senso-comum que, quando estamos muito produtivos, nossa vida social sofre e, inversamente, quando caímos na gandaia, produzimos menos.

Não é verdade.

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Minha Rotina no Brasil

Minha vida no Brasil está assim: acordo lá pelas oito em uma casa sem internet, telefone, tv, ou rádio. Na falta de Twitter e Jornal Hoje, só me resta mesmo trabalhar.

Em alguns dias, eu sento e leio, seja peças teatrais do século XIX ou livros sobre teatro dessa época - estou atualmente absolutamente mergulhado e fascinado nos sete volumes da História da Inteligência Brasileira, do Wilson Martins.

Outros dias, eu sento no computador e, sem o MSN piscando, eu escrevo, escrevo e escrevo - basicamente sobre teatro do século XIX, mas também sobre as peças contemporâneas que tenho assistido e sobre racismo de modo geral.

Umas duas vezes por semana, eu vou para o Centro, ou para o Real Gabinete Português de Leitura, ler - adivinhem - peças teatrais obscuras do século XIX (o Real Gabinete tem todos os livros raros que a Biblioteca Nacional deveria ter, mas perdeu), ou para a Biblioteca Nacional, onde fica o acervo do Conservatório Dramático Brasileiro, ler os pareceres manuscritos que a Censura Dramática emitia sobre as peças daquela época, assinados por censores ilustres como Machado de Assis - que consistentemente clamava por mais poderes de censura!

Ao final de um dia inteiro sem telefone nem internet (esses pobres substitutos pra companhia verdadeira), sem quase nenhuma interação humana (ou melhor, com humanos vivos; tenho interagido cada vez mais com humanos mortos do século retrasado), eu já estou ficando meio carente, então pego meu celular pré-pago, onde cada ligação é caríssima, e disparo torpedos para amigos ou conhecidos. Por razões financeiras, as ligações são sumárias: não _____ papo, só marcar encontro.

Assim, termino minhas noites sempre na companhia de alguém, na casa de um amigo ou com um amigo aqui em casa, em algum quiosque da orla ou em alguma peça alternativa na Zona Sul.

E, no meio de tudo isso, pairando sobre a rotina, preenchendo as lacunas do meu horário e sempre presente, tem a Liloló.

Ou seja: Estou mais produtivo, escrevendo mais e lendo mais. Estou mais social, encontrando amigos e indo a peças quase todos os dias. Estou namorando mais e transando mais.

Hmmm. O que estou fazendo menos então? Por qual ralo estava escoando esse tempo agora tão bem utilizado?

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Oferecendo a Vida em Holocausto à Internet

"Meu nome é Alex Castro e eu não verifico os pageviews do meu blog há uma semana!" *aplausos*

Não vou negar que continuo viciado em Internet. A cada dois, três dias, eu passo na casa do meu pai, filo almoço e uso o wireless dele por umas duas horas. Quando preciso fazer alguma coisa rapidinha, vou pra praça de alimentação do shopping aqui do lado e uso o wireless deles também, nunca por muito tempo. De madrugada, voltando pra casa, se bate uma crise aguda de abstinência, tem um posto de gasolina no caminho que oferece internet 24hs.

Mas algumas coisas ficaram claras:

Apesar de eu ser grato à internet por tudo o que ela me proporcionou (e não foi pouca coisa), é impressionante também o alto preço que ela cobra. Só falta nos sugar a alma. Com o tempo extra criado pela falta de internet, eu tenho a impressão de conseguir viver três vidas.

Duas horas de dois em dois dias, e quinze minutos aqui e acolá, dão e sobram para manter uma presença online FORTE. Nesse tempo, eu atualizo o blog, subo fotos pro meu Flickr, leio meu Facebook, meu Orkut e meu Twitter, verifico as vendas do Submarino, dou uma olhada nos novos feeds de blogs e fotos, e leio todos os meus emails e comentários - responder, eu nunca respondi mesmo. Tanto a renda quanto os pageviews do LLL se mantém literalmente os mesmos eu ficando logado 168h ou 6h por semana.

Quando estou em casa e lembro de algo que tinha que fazer na internet, tenho um arquivinho chamado "Coisas a Fazer na Internet" e vou jogando tudo lá: "Descobrir data de composição do Barbeiro de Sevilha. Procurar Mulheres de Mantilha no Estante Virtual. Marcar radiografia de abdômen. etc" Também aproveito para escrever emails para todo mundo a quem estou devendo resposta e, quando fico online, mando tudo de uma vez. E, adivinhem?, desse jeito, acabo até respondendo a MAIS emails!

Ou seja, para ser uma pessoa conectada e antenada, para ter e usar Twitter e Facebook, manter blog e responder emails, não é necessário oferecer sua vida em holocausto à Internet e passar 24h por dia na frente do computador.

Dá pra ser mais produtivo, transar mais, ler mais, ter mais vida social.

Mas você teria que twittar e blogar menos, limitar o MSN e o Facebook, talvez até mais importante, não ceder ao frenesi informacional de querer ler todos os jornais da internet ou todos os feeds de todos os blogs legais do mundo.

Fonte: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/ ... da_social/