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Herança árabe: os dias da semana

A influência árabe na língua portuguesa partiu das falas populares dos mouros e dos ibéricos, na era medieval, após a invasão da Península por esse povo vindo do Oriente Médio. Essa influência limita-se ao vocabulário, pois as estruturas linguísticas eram e são muito distantes entre si, uma semítica e outra indo-europeia (latina).

Os falares árabes contribuíram com muitos termos, muito mais de um milhar, porém não foram contabilizados à época, embora sejam encontrados em textos antigos. A maioria deles arcaizou-se, pois nomeavam realidades que deixaram de existir. Restaram cerca de 700 que chegaram até nossos dias, até nossa terra com a colonização portuguesa.

Recife é a herança árabe, pedra que avança sobre o mar, única cidade do Novo Mundo nomeada com empréstimos vindo desta língua do Oriente Médio. Os termos arabizados, empréstimos lexicais, são constituídos na maior parte por substantivos que designam conceitos e objetos, muitos contudo são de caráter abstrato.

Alguns passaram ao português assimilando o artigo al. Por isso grande parte inicia-se por a: açúcar, açafrão, açougue, azeitona, azeite, âmbar, arraes. Nas ciências exatas foram inúmeras as contribuições: algarismo, álgebra, zero, cifra. Além de substantivos entraram adjetivos como mesquinho, forro, chulo e farto. Tareco é um dos raros substantivos iniciados por al, pois Recife vem da forma arrecife, ainda hoje usada. Como preposição, temos até e como interjeição arre, olé e oxalá.

Os decalques foram frequentes como cópias literais do modelo árabe. Da mesma forma hoje ainda usamos estes modernos decalques em relação ao francês e demais línguas: sky-scraper (arranha-céu), hot-dog (cachorro-quente), haute couture (alta costura).

Se Deus quiser é literalmente in shá Alah (pela vontade de Alá). A expressão de boas vindas a casa é sua traduz bayti baytuk.

O exemplo de maior interesse, no caso dos decalques, refere-se ao sistema dos dias da semana, que é uma cópia do modelo árabe, reflexo no português e suas estruturas típicas.

O português é única língua ocidental que adotou o modelo numerado para nomear os dias da semana, fugindo ao padrão de usar como referência os deuses mitológicos, o que acontece no inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e demais línguas européias.

De acordo com Eva-Maria Von Kamnitz (1991:34), em língua árabe domingo é nomeado yaum al-ahad, dia primeiro, seguido de yaum al-ithnain dia segundo, yaum ath-thulatha dia terceiro, seguindo a ordem até a sexta-feira. No português, dia é substituído por feira no seu significado antigo, precedido do numeral ordinal. Dois termos do português fogem à numeração. Domingo (a única nomeação de origem cristã) vem do latim dominus die e sábado do hebraico sabath.

Em árabe, sexta-feira também não é numerado: yaum al-djum a é designado dia das reuniões dos fiéis, e o sábado é yaum as-sabat, usando também a raiz hebraica, também significando dia de descanso. Podemos observar que as diferenças em relação ao modelo derivam da diferença de religião. Enquanto os mulçumanos privilegiam as sextas-feiras (dia da reunião dos fiéis), os cristãos privilegiam o domingo (dia do Senhor). Ambos, contudo, receberam a influência hebraica no tocante ao sábado, sétimo dia da Criação, dia do descanso do Senhor.

Saber a origem dos termos leva a entender o porquê da nomeação dos dias da semana do português. Não é influência do comércio, da troca, das feiras cotidianas, mas resulta do contato com um povo que legou sabedoria acumulada na física, na geografia, na álgebra, na matemática, na botânica, na astronomia e na ciência da vida, ao conviver com nossos ancestrais portugueses por 800 anos no mesmo território.

Fonte: http://pe360graus.globo.com/educacao/ed ... EMANA.aspx