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Fofão na inquisição

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Fofão na inquisição
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Quando faço um balanço da minha vida hoje, quando a terceira década está cada vez mais próxima, tenho convicção de que tive uma infância muito feliz. Apesar de ter um meio-irmão, fui criada como filha única. Por causa disso, recebi muita proteção dos meus pais, que não me deixavam brincar com qualquer moleque da rua. Então, para me divertir com seres da minha idade, se não estivesse na escola, tinha que ficar pendurada na grade da varanda esperando alguma criança passar ou então contando os dias para as férias, para me reunir com os primos.


Devido à minha “clausura”, minha diversão maior era a televisão. Como estudava pela manhã, meu pai gravava alguns desenhos que gostava para que eu assistisse depois dos deveres. Adorava Thundercats, He-Man, She-Ra, Caverna do Dragão... Todos extremamente violentos, mas, diferente dos de hoje, ninguém estava ligando para teorias psicopedagógicas. À tarde, ligava na TV Manchete para ver Changeman, Jaspion, Lion Man, Black Kamen Rider, Flashman e por aí vai. As séries japonesas seguiam muito bem a linha dos desenhos: pancadaria e monstros horrendos.


Mesmo vendo tanta bagaceira, houve um episódio que causou pânico entre a gurizada: o boneco do Fofão era um assassino. Lembro das diversas lendas que apavoravam o sono de qualquer um. Eu custava a acreditar nas histórias, mesmo elas sendo cada vez mais populares. Tudo sempre acontecia à noite. Numa, o Fofão tinha tomado vida e degolado um garoto com um punhal que carregava dentro de si. Outra vez, tinha estrangulado uma menina. Depois, surgiu a relação entre ele e o Chuck, o brinquedo assassino. Afinal, os dois usavam jardineira jeans e camisa listrada.

Quem tinha o tal boneco começou a ficar desconfiado. Como eu não achava a figura muito atraente, com aquelas bochechas enormes e caídas, mãos e pés desprovidos de dedos e pêlos em tudo quanto é parte do corpo, nunca fiz questão de que meus pais me comprassem o troço nada fofo. Mas, quem tinha o famigerado não perdeu tempo para fazer uma “dissecação” e tirar a prova do que tinha dentro da criatura. Daí começaram a surgir outras histórias, de que havia velas, partes de brinquedos e o tal punhal preto.

Eu continuei sem acreditar nos contos da cripta protagonizados pelo boneco do Fofão até que o jornal do meio-dia anunciou a ligação entre ele e a magia negra. Não sei se eram brinquedos originais, mas exibiram uma matéria contando que uma família resolveu abrir o bicho e, realmente, encontrou vestígios de macumba. O mesmo foi feito por outros proprietários, que também acharam os supostos objetos malévolos. Mas, tranquilizando os espectadores, o repórter esclarecia que o tal punhal era o suporte da cabeça oca de vinil, que ficava presa ao corpo de enchimento. Assim, os seus filhos estavam brincando com um “ebó”, mas não com um serial killer.

Mal havia acabado a matéria e minha mãe já estava apavorada. Afinal, eu fiz questão de lembrar que minha prima tinha um bicho daqueles. Ela não perdeu tempo, pegou o telefone e ligou para minha tia, que morava em Minas Gerais, para contar a notícia: Fofão era do mal e precisava ser eliminado da vida de todos.


Não foi minha santa mãezinha que liderou o movimento, mas o povo não perdeu tempo para se livrar do boneco satânico. Foi armada uma verdadeira santa inquisição, com populares se reunindo para a executar condenação do brinquedo. Não houve qualquer julgamento para esclarecer os fatos e o “herege” acabou queimando na fogueira. Pelas ruas, apenas o cheiro de plástico queimado e famílias aliviadas.

Fonte: http://karolescreve.blogspot.com/2009/0 ... sicao.html