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Estranhos animais das águas nordestinas

Estranhas formas de vida marinha estão sendo catalogadas pelo Centro de Pesquisa e Extensão Pesqueira do Nordeste (Cepene/Ibama), em Tamandaré, no Litoral Sul. Numa expedição que retornou à costa segunda-feira passada, os pesquisadores descarregaram do navio Natureza caranguejos que parecem aranhas, baratas-d’água gigantes e siris nunca antes vistos em águas brasileiras.

O levantamento é feito em regiões profundas da costa nordestina, onde a ausência de luz impede a existência de plantas e a temperatura chega a seis graus. As armadilhas, lançadas a profundidades que variam de 150 a 800 metros, são projetadas para a captura de crustáceos, mas trouxeram à tona ainda tubarões e outros peixes. “Há ainda crustáceos do gênero Pagurus, que não têm carapaça e se abrigam em conchas de moluscos vazias”, explica a bióloga Maria do Carmo Santos, da equipe de pesquisadores.

As armadilhas são lançadas do navio Natureza – um barco de pesca com 16 metros de comprimento e autonomia de combustível para um mês – a cerca de 10 quilômetros da costa. Na última expedição, entre os nove tripulantes estavam um pesquisador do Cepene/Ibama, um engenheiro de pesca bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e um aluno de iniciação científica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Este foi o terceiro cruzeiro realizado este ano. Embora o navio Natureza tenha capacidade para trazer uma tonelada, nesta expedição foram descarregados apenas 300 quilos. “Lançamos três tipos de armadilhas, destinadas a animais bentônicos (que vivem associados ao fundo do mar)”, explica o engenheiro de pesca do Cepene/Ibama Enilson Cabral. Segundo ele, a lama arrastada pelas armadilhas também está sendo estudada. “Os resultados preliminares estão revelando a presença de uma infinidade de micromoluscos”, diz Enilson.

O engenheiro de pesca acredita que os animais marinhos descobertos pelo navio Natureza parecem estranhos porque não integram as espécies exploradas comercialmente. “As pessoas estão acostumadas a ver lagostas, camarões e caranguejos de espécies de interesse econômico”, esclarece. Das encontradas nos cruzeiros do Natureza, apenas uma tem possibilidade de ser explorada. Trata-se de um caranguejo-gigante, que atinge mais de três quilos de peso.

O trabalho de prospecção das águas profundas da costa nordestina começou em 1997. Ao todo, foram realizados 18 cruzeiros, três deles este ano. Em 1997 e 1998, o material não foi estudado como agora. “Os crustáceos coletados foram pesquisados pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que estava interessada apenas no caranguejo-gigante”, conta Maria do Carmo. Como o restante dos animais era descartado sem ser pesquisado, a equipe do Cepene/Ibama começou o estudo.

Além de identificar a espécies, os pesquisadores Cepene/Ibama anotam a quantidade de exemplares de cada uma delas e fazem sua biometria. A equipe anota o peso e dimensões da carapaça, além de observar o sexo e se as fêmeas estão ovadas. Com essas informações, eles pretendem ter noções da distribuição, abundância e reprodução dos crustáceos da região.

A pesquisa integra o Revizee, programa do Governo Brasileiro responsável pelo levantamento dos recursos vivos da Zona Econômica Exclusiva (ZEE). “O Revizee é de fundamental importância política, econômica e estratégica, porque assegurará o uso e ocupação das 200 milhas”, diz a bióloga.


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Fonte: http://www2.uol.com.br/JC/_2000/1311/cm1211_1.htm