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Espécie de peixe reaparece após 30 anos

Animal de apenas 6 cm vive em paredão submerso de arquipélago oceânico brasileiro.
O Anthias salmopunctatus pode ser um dos bichos mais raros e ameaçados do mundo.


Peixe Anthias salmopunctatus, sumido há quase 30 anos.jpg
Peixe Anthias salmopunctatus, sumido há quase 30 anos.jpg (12.56 KiB) Visto 561 vezes


Uma espécie de peixe que não era vista por ninguém há quase 30 anos parece ter ressurgido das cinzas nos Penedos de São Pedro e São Paulo, um pequeno arquipélago brasileiro localizado quase no meio do oceano Atlântico. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) voltaram a achar o bicho nas ilhas e alertam: ele pode ser uma das espécies marinhas mais raras e ameaçadas do planeta.



A "ressurreição" da espécie foi relatada pelos pesquisadores na revista científica "Journal of Fish Biology". O biólogo Osmar Luiz Júnior, que faz mestrado em ecologia na Unicamp e é um dos autores do trabalho, contou ao G1 que o peixinho Anthias salmopunctatus, de apenas 6 cm de comprimento, só havia sido localizado uma vez, justamente quando os primeiros exemplares foram coletados (em 1979) e a espécie foi descrita.



"Desde então, foram feitos vários levantamentos nos Penedos de São Pedro e São Paulo, mas ninguém achava o bicho", diz ele. Foi só no começo de 2006 que Luiz Júnior topou com o animal. "Eu atribuo isso, em parte, ao fato de ele se misturar aos cardumes de outro peixe." É claro que isso não deveria confundir o olhar aguçado dos biólogos marinhos, se não fosse por um detalhe: o A. salmopunctatus se mistura aos cardumes do outro peixe, o Chromis multilineata, a profundidades que vão de 35 m a 55 m.



Debaixo de toda essa coluna d'água, as várias faixas do espectro luminoso vão sumindo, de forma que ambas as espécies ficam com a mesma cor amarronzada e sem-graça. Foi só com a ajuda dos flashes de suas câmeras que os pesquisadores conseguiram ver a bela cor amarelo-alaranjada das escamas do bichinho. No entanto, sob condições naturais, ele se mescla discretíssima aos peixes da espécie vizinha. Por isso, os pesquisadores suspeitam que ele esteja usando o chamado mimetismo social, no qual um bicho toma partido do grande número presente num grupo para "sumir" em meio a ele.


O peixe (laranja) misturado a um cardume de Chromis multilineata, estratégia que ele provavelmente usa para confundir os predadores marinhos.jpg
O peixe (laranja) misturado a um cardume de Chromis multilineata, estratégia que ele provavelmente usa para confundir os predadores marinhos.jpg (10.44 KiB) Visto 552 vezes



O peixe parece viver exclusivamente em grupos de 5 a 10 indivíduos perto de fendas num paredão vertical submerso, só se aventurando para (relativamente) longe delas quando se mistura aos cardumes de seu companheiro. Tudo isso leva a crer que a espécie tenha desenvolvido tais estratégias para fugir de seus predadores. Ele próprio certamente não é lá um grande caçador, provavelmente limitando-se a comer plâncton (organismos marinhos diminutos e flutuantes, como larvas de outros animais) e pequenos crustáceos.



Ameaçado por natureza
Uma série de fatores conspiram para fazer do A. salmopunctatus um bicho ameaçado por natureza. Para começo de conversa, explica Luiz Júnior, os Penedos são muito isolados, de forma que as espécies endêmicas (ou seja, exclusivas) do lugar estão totalmente adaptadas a ele e não têm muito para onde ir. E, mesmo no ambiente muito restrito do arquipélago (com menos de meio quilômetro quadrado de área até a profundidade de 50 m), o animal é único por só ficar à vontade nas reentrâncias do paredão rochoso.



"O que eu acho que vai acabar se comprovando é que esse bicho é o que tem a menor distribuição geográfica para um peixe marinho", resume Luiz Júnior. Não dá para ficar muito mais raro que isso - só sumindo. E é isso que os pesquisadores temem.



O pesquisador da Unicamp lembra que outros peixes endêmicos de ilhas oceânicas já sofreram verdadeiros holocaustos em suas populações, graças a perturbações como um El Niño mais forte ou a proliferação de algas microscópicas tóxicas. Por isso, a idéia é acompanhar a população do bicho, estimar seu (provavelmente baixo) número e, se for o caso, classificá-lo num nível mais grave de risco. (Hoje, sua classificação na Lista Vermelha das espécies ameaçadas, organizada pela União Internacional para a Conservação da Natureza, é "vulnerável", uma das mais leves.)




Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0, ... 03,00.html