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Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?

Posto abaixo texto de uma das melhores e mais competentes repórteres do país, Eliane Brum, da revista Época, no qual conta como a mais importante atriz de Moçambique, Lucrécia Paco, sofreu preconceito em um shopping da capital paulistana.

Mulher e negra vítima de preconceito no Brasil, de tão recorrente, nem parece mais notícia. Infelizmente. Como remédio a isso, o texto de Eliane nos faz sentir vergonha.

“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”, por Eliane Brum

Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”.

Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho.

Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse.

A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.”

A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam?

Para ler o restante do texto, clique aqui.

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Na mesma semana em que a Época nos agraciou em seu site com a narração sensível de Eliane, também destacou um post infeliz do blog de Paulo Nogueira - jornalista tarimbado, com uma história de sucesso pelas maiores redações do país, formador de opinião e correspondente da revista em Londres.

Comentando sobre a história de uma garota belga que afirma ter solicitado a um tatuador três estrelas no rosto e, após tirar um cochilo, acordou com 56 (o tatuador nega e diz que o pedido foi da cliente), ele postou o seguinte:

Tendi a acreditar no veredicto da voz rouca das ruas: mentira. Mas vendo o vídeo em que aparecem a garota belga estrelada e o tatuador, bem, passei a acreditar na versão da menina. Por instinto.

O cara é sinistro como os ciganos búlgaros que roubam desavergonhadamente em seus táxis os turistas de Praga com voltas e voltas inacreditáveis. Veja-o na foto abaixo. Eles, os taxistas de Praga, são, aparentemente, um caso perdido. Li uma matéria da BBC que contava que, diante da pressão da imprensa local, o prefeito de Praga se disfarçou e andou de táxi pela cidade. Cobraram até 500% acima, fora os trajetos inacreditáveis. Ele admitiu que eram uma praga os motoristas de Praga. E disse que ia resolver o problema.
Bem, faz cinco anos. Não cinco semanas ou cinco meses. Cinco anos. Passei uns dias em Praga, como narrei num post anterior, e fui assaltado por motoristas desonestos.

Eles tinham uma cara pesada, esquisita. Sequer grunhiam para dizer bom dia ou obrigado. Uma hora desisti de ser gentil depois que o motorista, num trajeto simples para o hotel, deu sem mais aquela uma volta num quarteirão enorme, a despeito de minhas reclamações, como se eu fosse um _______.

O tatuador que vi no vídeo, bem, eu não andaria no táxi dele, se ele tivesse um. Ele diz que a menina inventou a história depois de ter levado uma dura do pai e do namorado ao chegar em casa multiestrelada no rosto. Que ela ficou quase tão repulsiva quanto seu tatuador, é um dado da vida.

Todos têm direito a ter opiniões. Mas é impossível deixar de notar que é do tipo de “instinto” sobre o qual escreve Paulo que Eliana tão bem discorre em seu texto…

PS: Depois que postei este texto, a menina revelou que mentiu, incriminando o tatuador por medo da reação do pai.


Fonte: http://colunistas.ig.com.br/sakamoto/20 ... ser-negro/