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Enciclopédia usa artefatos arqueológicos para recriar mundo

Obra traz dados sobre personagens, civilizações, livros e até fauna e flora.
Visão acrítica de episódios da história bíblica é um dos raros defeitos.


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Artefatos arqueológicos são grande charme da obra


As histórias bíblicas sobre David e Golias, a destruição de Jerusalém e a crucificação de Jesus costumam chegar até nós debaixo do filtro de milênios de tradição artística, tendo sido recriadas em quadros, esculturas e filmes de todas as épocas e lugares. O livro "Enciclopédia da Bíblia", que acaba de ser lançado no Brasil, é um antídoto bem-vindo a esse peso da tradição, ajudando o leitor a ver o universo bíblico de forma mais direta, através da lente da arqueologia e da reconstrução acadêmica moderna.

Graças aos inúmeros achados arqueológicos ao longo do último século, dá para reconstruir com razoável grau de precisão as muralhas azuis da Babilônia ou o portão da cidade israelita de Magedo (o suposto local do Armageddon, segundo a tradição bíblica) na época do rei Salomão. Uma inscrição deixada pelo próprio Pôncio Pilatos, prefeito romano da Judeia responsável por condenar Jesus à morte, ou o ossuário (caixão feito para abrigar apenas os ossos) de José Caifás, sumo sacerdote judeu que teria sido opositor do Nazareno, ajudam a trazer o leitor moderno a apenas alguns graus de separação desses personagens de 2.000 anos atrás. (Infelizmente, evidências arqueológicas diretas da vida de Jesus ainda não vieram à tona.)

Mas talvez o mais fascinante dessa grande quantidade de novos dados sobre o mundo bíblico seja a janela que ela abre sobre a vida cotidiana de pessoas anônimas de milhares de anos atrás. As páginas da enciclopédia estão cheias desses pequenos detalhes que fazem a diferença: um calendário dos antigos israelitas escrito em forma de verso; a coleção de jóias de uma cananeia morta há 3.300 anos; moedas da época de Herodes que certamente passaram de mão em mão no mercado; o sinete (espécie de carimbo identificador para selar documentos) usado por um escravo do rei de Judá; um jarro de vinho que leva a identificação do dono e talvez até uma designação de origem.

Usando esses numerosos subsídios, os autores da obra reconstroem o culto religioso no Templo de Jerusalém, os casamentos e nascimentos de filhos no antigo Israel, a agricultura, o comércio e a guerra. Há descrições sucintas e precisas do conteúdo dos livros bíblicos e até uma bela seção sobre a fauna e a flora da Terra Santa na Antiguidade. (Você sabia, por exemplo, que o bicho chamado de coelho em algumas tradução da Bíblia na verdade é um hírax, pequeno parente dos elefantes que mais parece um roedor?)

O grande senão nesse guia agradável e conciso do mundo bíblico é a perspectiva diretamente religiosa em certos pontos. Os autores aceitam de forma mais ou menos acrítica, como dado histórico, as narrativas sobre o Êxodo, a conquista da Terra Santa e o templo de Salomão, sem mencionar as grandes dúvidas sobre a confiabilidade histórica desses relatos. Teria sido melhor relatar ao leitor o que a narrativa bíblica diz sobre esses fatos e, ao mesmo tempo, lembrar o que a pesquisa histórica revela sobre eles.

Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0, ... IBLIA.html