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E.T

Kentaro Mori

Mulheres gritando em pânico, discos voadores e extraterrestres malignos: poderia ser um filme B dos anos 50, um Plano 10 do Espaço Exterior. Mas é um vídeo no estilo “Bruxa de Blair”, com extraterrestres Greys.
Como um bom vídeo caseiro, começa com a festa de aniversário de 17 anos de uma garota. De repente, as luzes se apagam, e não porque “É pique! É pique! É pique!”. É um blecaute mesmo. Três adultos resolvem sair da casa para verificar o disjuntor. Começa o terror.



Fora da casa, vêem uma luz vermelha do céu. “É uma nave! É uma nave!”. A nave pousa, e três pequenos extraterrestres vestidos como mímicos, com roupas colantes pretas e longos braços são vistos. Apesar de provavelmente terem vindo de muito longe, eles não parecem perceber que têm companhia, assim os homens os filmam escondidos. “Temos que dar o fora daqui!”, diz um deles, mas se fizessem isso não haveria muito filme.



Em algum ponto os extraterrestres se dão conta de que há seres humanos no planeta Terra, se é que não vieram especialmente para estragar a festa de aniversário da pobre garota, e começa a luta propriamente dita. Todos os Homo sapiens, seguindo as regras bem estabelecidas dos filmes B, resolvem se “proteger” dentro da casa, facilitando o trabalho dos extraterrestres.



Eles têm boas armas dentro de casa, mais um indício de que o vídeo deve ser de algum subúrbio americano. Ah sim, eles falam inglês – os humanos, isto é. Naturalmente, protegidos todos dentro de casa com extraterrestres ameaçadores do lado de fora, qualquer pessoa atiraria no telhado. Eles fazem isso, e como um elemento no roteiro, acabam acertando um dos extraterrestres. Estamos chegando perto do clímax.



E o clímax é quando eles recolhem esse extraterrestre atingido para dentro da casa. Será que jogarão água nele para ver se derrete? Não, provavelmente ainda não tinham visto “Sinais”. Há mais confusão, e no auge, a câmera é então – finalmente – deixada de lado em um dos quartos.



Mas como em “A Bruxa de Blair”, câmeras deixadas jogadas no chão são as melhores cinegrafistas. A última cena no vídeo é dos três extraterrestres andando tranqüilamente pela casa. Um deles percebe a câmera, pára por alguns momentos e, se não fosse apenas uma criança vestindo um capacete sem expressão, provavelmente daria um sorriso. “The End”.



Apesar do final do vídeo, nenhum animal foi ferido durante a produção deste filme. Diz-se que as pessoas finalmente estabeleceram comunicação civilizada com os temíveis alienígenas de roupa colante, e um dos membros da família é levado sem dano pelos extraterrestres. “Erick”, um dos personagens que carregou um dos alienígenas carinhosamente no colo, comenta depois: “O peso [do extraterrestre] era menor do que eu imaginava, sua pele era pegajosa, parecida com a de um lagarto. Tinha cheiro de peixe podre”. Provavelmente só queriam um desodorante emprestado.
Finalmente, no melhor estilo dos finais de filmes, “Personagem A se casou com a personagem B e teve sucesso como dono da empresa C”, variação do “e viveram felizes para sempre”, somos informados de que a família compreensivelmente resolveu se mudar do local. O vídeo é a prova do que passaram. “Pode acontecer com qualquer um”, Erick avisa ao fim. Especialmente se você for um ator.



À sua imagem e semelhança
Não conhecia detalhes certos sobre a origem deste vídeo, mas de forma reveladora, o vídeo parecia em tudo uma cópia de um filme de 1998 um pouco menos obscuro, mas ainda fictício, chamado “Alien Abduction: Incident in Lake County” [Abdução Alien: Incidente em Lake County”]. Esse é o vídeo da família McPherson, e embora tenha elementos adicionais como pessoas sangrando pelo nariz, tem a mesma idéia básica: aliens invadem uma festa de aniversário. Que é uma premissa abordada rapidamente mesmo no filme “Sinais”. O filme McPherson, aos que tenham dúvidas, está listado no Internet Movie Database (IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0142074/), e _____ os créditos dos atores ao final.
A resposta estava mesmo na incrível semelhança com o filme McPherson. O diretor e roteirista do filme McPherson, Dean Alioto, produziu em 1989 uma versão original do vídeo, chamada simplesmente “UFO Abduction”. Essa versão original nunca foi distribuída comercialmente, embora o cinéfilo com bons US$ 150,00 à disposição possa comprar esse vídeo raro em <http://www.rarevideo.com/video_alpha.asp?letter=U&keyword=null#V3178>. Não confundir “UFO Abduction” de Dean Alioto com o vídeo homônimo de Wendelle Stevens.
Pouco depois de publicada uma primeira versão deste artigo no sítio BURN <http://www.burn.com.br>, recebi uma pronta e gentil resposta de Dean Aliotto, que além de tudo foi muito claro: “Sim, Kentaro, esse é meu vídeo original”.
Alioto também comentou que “houve muita controvérsia sobre esse mesmo filme entre ‘peritos em OVNIs’ e um coronel reformado da Força Aérea. Toda a história está lá em badmovieplanet.com: <http://www.badmovieplanet.com/3btheater/a/alienabductionII.html>
Sem muita surpresa, o vídeo não era real e seu produtor sempre buscou deixar tal muito claro. Isso, apesar de alguns ufólogos terem pensado o contrário, ao menos quando o vídeo foi lançado, em fim dos anos 80. E isso a despeito de canais de TV preferirem não deixar as coisas tão claras.
Tanto melhor para nós, “UFO Abduction” de Dean Alioto deve logo ser lançado logo em DVD. Que tenha extras