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Draco dormiens nunquam titilandus

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Draco dormiens nunquam titilandus
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Uma das convenções mais poéticas (e mal-compreendidas) da literatura inglesa é o costume de chamar os dragões de worm – palavrinha tão degradada nos últimos séculos que seu uso mais comum hoje é para designar vermes ou até minhocas. Nada disso. Nas profundezas do passado germânico, worm queria dizer “serpente”: a serpente primordial, com todo o subtexto de fascínio e medo que os répteis são capazes de incutir no nosso córtex cerebral de primata. Pode ser só coincidência, mas o fato é que o maior “dragão” do mundo real talvez fosse mesmo uma serpente – sem bafo de fogo e com veneno à beça pingando dos beiços.

A conclusão vem de uma pesquisa publicada nesta semana na revista científica americana “PNAS”. O artigo é assinado por dois biólogos australianos um bocado prolíficos e criativos, Bryan G. Fry e Stephen Wroe. À primeira vista, o astro do estudo é o bom e velho dragão-de-komodo (Varanus komodoensis), provavelmente o réptil vivo mais temido do mundo, embora algumas espécies de crocodilo sejam bem mais mortais. Acontece, porém, que as conclusões da dupla e de seus colegas se aplicam igualmente bem a uma criatura extinta ainda mais portentosa que o dragão-de-komodo.

Falo do Megalania prisca, um gigante que pode ter alcançado 7 m de comprimento e 2 toneladas. Os primeiros seres humanos a chegar à Austrália, lá se vão mais de 40 mil anos, podem ter convivido brevemente com o bichão antes de ele sumir poucos milênios depois. (O porquê da extinção desse e de outros monstros australianos é objeto de um debate complicado e com cheiro de interminável. Fica pra próxima.) O fato é que estamos falando de um réptil terrestre com tamanho suficiente para fazer qualquer candidato a Beowulf borrar as calças e sair de fininho.

A pergunta que não quer calar, contudo, é a seguinte: como esse bicho vivia? Os dentes serrilhados não deixam dúvidas a respeito da preferência dele por carne, mas há quem aposte que se tratava de um mero carniceiro. Ele teria se banqueteado com os cadáveres dos marsupiais gigantes que também existiam na Austrália da Era do Gelo. Fry e Wroe, porém, discordam.

Primos de primeiro grau
A base de argumentação da dupla, como talvez você tenha imaginado, é o parentesco do monstro com o dragão-de-komodo. Com base em análises evolutivas detalhadas, está se avolumando o consenso de que o Megalania prisca deveria se chamar, na verdade, Varanus priscus, e que seu parente mais próximo é o próprio dragão-de-komodo e outros membros do gênero Varanus.

Fry e Wroe foram além dessa simples constatação de parentesco. Eles se puseram a desmentir uma série de mitos sobre o comportamento de predador dos dragões vivos hoje. Primeiro, eles mostraram, usando simulações computacionais em 3D, que a mordida do bicho é relativamente fraca – aliás, 6,5 vezes mais fraca que a de um crocodilo do mesmo tamanho. Os dragões-de-komodo devoram grandes mamíferos (como búfalos domésticos) com certa regularidade, mas não têm força suficiente para quebrar o pescoço deles ou sufocá-los só com a bocarra. É preciso algo mais.

Achava-se que esse “algo mais” eram as supostas bactérias virulentas presentes na baba da criatura, mas trata-se, ao que parece, de uma lenda. As bactérias variam muito, em quantidade e tipo, de dragão para dragão, e normalmente são apenas “emprestadas” dos mamíferos que eles comem. Mas, ao dissecar o crânio de um dos bichos, a dupla australiana achou glândulas complicadíssimas, produtoras de veneno. Melhor ainda, extraíram a peçonha e analisaram sua composição química em detalhe, comparando-a com outros venenos produzidos por cobras e lagartos.

O resultado é que as proteínas do veneno são bastante parecidas com o que sabemos sobre serpentes, por exemplo. Elas impedem o sangue de coagular, abaixam a pressão da vítima (deixando-a tonta e, na pior das hipóteses, totalmente imobilizada) e a deixam em choque. É por isso, raciocinam eles, que o bichão não precisa de uma mordida realmente potente. Basta produzir um ferimento relativamente fundo na vítima, inocular o veneno e esperar que ela fique vulnerável por perda maciça de sangue.

E aqui vem o pulo-do-gato evolutivo. Os lagartos do gênero Varanus parecem compartilhar com as serpentes uma predileção antiga pela produção de veneno – os mesmos mecanismos moleculares são usados por ambos os tipos de réptil para fabricar peçonha. É bem provável que o monstrão Megalania prisca (ou Varanus priscus, como queiram) tenha conservado essa tática predatória e também matasse suas vítimas com veneno.

Ainda bem que nenhum australiano moderno correrá o risco de descobrir isso em primeira mão – embora eu não possa evitar a sensação de que o mundo está mais pobre por não ter um dragão de verdade nos últimos milênios.

Fonte: http://colunas.g1.com.br/visoesdavida/