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Dinossauros não detiveram evolução de mamíferos modernos, di

Fósseis e DNA sugerem que grupos atuais surgiram há mais de 90 milhões de anos.
Diversificação que se seguiu a extinção de répteis teria envolvido mamíferos 'arcaicos'.


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Grupo dos afrotérios, que inclui elefantes, surgiu há mais de 90 milhões de anos, e tem bichos como...


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... o hírax, pequeno herbívoro africano que, curiosamente, possui cascos nos dedos.


Ao contrário do que quase todo mundo imaginava, o desaparecimento dos dinossauros há 65 milhões de anos não levou a uma explosão evolutiva para os ancestrais dos mamíferos modernos, sugere um novo estudo. Pelo contrário: os principais grupos atuais teriam surgido bem no meio do reinado dos dinos e continuado a levar sua vida como se nada tivesse acontecido por milhões e milhões de anos após o fim dos grandes répteis.

Essa revisão radical da história do grupo animal ao qual pertence o homem está na edição desta semana da revista científica britânica "Nature".

"As linhagens atuais [de mamíferos] basicamente não reagiram de forma nenhuma à morte dos dinossauros ou à extinção em massa dessa época", disse ao G1 Olaf Bininda-Emonds, da Universidade Friedrich Schiller em Iena (Alemanha). "Elas simplesmente continuaram a se diversificar na mesma taxa de sempre, sem grandes expansões ou extinções." Antes, acreditava-se que o fim dos dinos, muito maiores e capazes de ocupar nichos ecológicos mais variados (como os de grande carnívoro ou herbívoro), teria "liberado" esses espaços para outros animais.

Esse aqui é outro
O mais engraçado é que talvez ainda faça sentido dizer que o fim dos dinos iniciou a era dos mamíferos. Só não era (ainda) a era dos mamíferos nos quais todo mundo pensava, diz Bininda-Emonds. "Os mamíferos que se dão bem nessa fase têm pouco a ver com os que vemos hoje", afirma o pesquisador.

Mas antes é preciso entender como a equipe chegou a essa conclusão. O trabalho foi exaustivo: os pesquisadores reuniram dados genéticos de 4.510 das 4.554 espécies de mamíferos vivas hoje para traçar uma árvore genealógica. "É provável que essa superárvore se torne o padrão-ouro dos estudos desse tipo a partir daqui", diz, sem falsa modéstia, Ross MacPhee, zoólogo do Museu Americano de História Natural e co-autor do estudo.

As datas atribuídas à formação de cada um dos subgrupos (quando um ancestral comum dá origem a duas linhagens diferentes, por exemplo) vêm principalmente do chamado relógio molecular. Em teoria, é um bocado simples: os pesquisadores verificam as diferenças nas "letras" químicas de DNA entre as espécies e, a partir disso, estimam quem sofreu alterações genéticas primeiro, e em maior quantidade.

Se a taxa dessas mudanças fosse constante, seria fácil dizer há quanto tempo duas espécies ou grupos se separaram. Mas muitas vezes não é, e por isso os pesquisadores precisam usar métodos estatísticos sofisticados para levar em conta essas variações. E também fósseis que mostrem quando cada grupo de animais surgiu (ou pelo menos sua primeira aparição preservada em rochas), os quais permitem "calibrar" a árvore genealógica com datas reais.

Após gastar muita memória de computador, a análise trouxe uma série de detalhes intrigantes. Como é de esperar, a primeira grande bifurcação nos galhos da árvore genealógica é a origem dos monotremados, os mais primitivos dos mamíferos vivos, como o ornitorrinco, que ainda bota ovos, há 166 milhões de anos. Depois vem a separação entre marsupiais (cangurus e gambás, entre outros) e placentários (a grande maioria das espécies atuais, incluindo humanos, carnívoros e roedores), há 147 milhões de anos.

Ramos apressadinhos
E então, após 50 milhões de anos de calmaria, os placentários, que nos interessam particularmente, parecem ter ficado estranhamente apressadinhos. Entre 100 milhões e 85 milhões de anos atrás, quase todas as ordens modernas do grupo -- dos primatas aos morcegos, passando pelos carnívoros (cães, gatos e ursos, entre outros) -- teriam dado as caras de vez. Animais hoje muito diferentes teriam seus ancestrais no mesmo grupo, como os atuais elefantes, peixes-bois e híraces (pequenos herbívoros africanos com casco).

Isso não significa dizer, porém, que eles tinham caras parecidas com as de seus primos modernos. Ao contrário, diz MacPhee. "Nós somos os primeiros a argumentar que a dificuldade dos paleontólogos para achar esses ancestrais diretos dos mamíferos modernos no Cretáceo [período final da era dos dinos] é que havia poucas linhagens, as quais provavelmente continuaram morfologicamente primitivas. É por isso que não é possível usar as características dessas espécies para ligá-las a seus descendentes", afirma. Esses bichos teriam uma aparência que lembra vagamente a de um roedor ou um ouriço (sem os espinhos) de hoje.

O primeiro mistério - o de que os grupos modernos começaram sua trajetória muito antes do fim dos dinos - é completado por outro: eles só voltaram a se diversificar para valer cerca de 10 milhões de anos após a extinção dos grandes répteis. No começo da era dos mamíferos, outros membros do grupo -- como os primitivos multituberculados, que parecem ter ocupado as mesmas funções ecológicas que os roedores -- tiveram seus 15 minutos de fama evolutiva.

"Se a nossa análise está correta, temos um gigantesco quebra-cabeças macroecológico nas mãos -- se os mamíferos arcaicos conseguiram se diversificar, porque os demais não o fizeram?", questiona MacPhee. Uma possível explicação -- os mamíferos primitivos teriam sido, por alguma razão, mais rápidos, e fechado a porteira evolutiva para seus primos -- seria ótima se não parecesse tanto uma repetição da velha idéia de que os dinos tinham desempenhado esse papel.

"Nossos dados são consistentes com essa hipótese, mas não equivalem a uma evidência sólida em favor dela", admite Bininda-Emonds. "Tentar entender quais as reais causas por trás desse fato vai ser um grande desafio", diz ele.

Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0, ... 03,00.html