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Dilma enfrenta " discursos divergentes ", diz analista.



Trancos e Barrancos do novo governo
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O ex-presidente da República na base militar próxima da bela praia paulista de Guarujá - em silêncio, mas provocado praticamente todos os dias por antigos e novos críticos, cada vez mais numerosos, apressados e inclementes nas cobranças. Nada escapa dos olhares curiosos e dos pedidos veementes de "investigação rigorosa", nem as tralhas da mudança da família Lula da Silva.

Enquanto isso, a presidenta Dilma Rousseff vai instalando "aos trancos e barrancos" - como na velha canção popular - o novo-velho circo do poder em Brasília. Em geral, bafejada por opiniões positivas, acenos compreensivos e palavras carinhosas dos mais duros e impiedosos analistas e adversários políticos até a oficialização dos resultados do pleito presidencial de outubro de 2010.

"O poder é isso, sempre foi e sempre será assim", repetem gregos, mineiros e baianos há muito tempo. Ou como sintetizou a nova presidente na sua primeira fala à Nação depois de empossada no Congresso, direto do Parlatório do Palácio do Planalto, depois do temporal no normalmente seco planalto central do país. Em raro momento de brilho misturado com emoção genuína, a mineira e ex-combatente guerrilheira nas lutas contra a ditadura militar, que alcançou pelo voto democrático o posto de mando mais elevado do País, surpreendeu de fato.

No discurso, depois de passar em revista as formações militares sob seu comando, Dilma Rousseff recorreu "a um poeta da minha terra", na verdade o escritor e ex-diplomata Guimarães Rosa, em citação retirada de capítulo notável do romance "Grande Sertão: Veredas".

"O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem", disse a ex-presa política duramente torturada em sua passagem pelo cárcere político.

Belas e bem escolhidas palavras, pronunciadas com voz embargada, sob os olhares atentos e testemunhais de meia centena de líderes políticos estrangeiros - de Hugo Chavez a Hillary Clinton - e aplausos da multidão presente na festa da Esplanada, sem falar nos milhões de brasileiros de olhos e ouvidos ligados nas transmissões das redes de rádio e televisão Brasil afora. Resta saber como a nova presidente honrará de fato durante seu mandato as citações de seu discurso de posse, ou se as deixará à deriva do tempo e do vento.

É cedo ainda para ter respostas, mas é sempre recomendável - principalmente para quem pensa e faz jornalismo -, ficar atento ao movimento dos ventos e das velas. Por exemplo: a volta repentina dos gestos significantemente expressivos da ex-ministra Erenice Guerra, em seus passos aparentemente seguros sobre os tapetes macios e silenciosos do Palácio do Planalto.

Não custa lembrar: depois de pintar e bordar no pedaço - até dedo na cara de ministro ela botou no governo Lula -, Erenice foi afastada do comando da Casa Civil no bojo do maior escândalo da recente disputa presidencial, que abalou severamente os principais pilares em que se sustentava a campanha de Dilma, como reconheceu em entrevista recente à Folha de S. Paulo o publicitário baiano João Santana.

Vale ficar atento igualmente ao conteúdo das entrevistas e discursos notoriamente divergentes quanto a intenções e rumos pretendidos, de antigos e novos integrantes do núcleo mais fechado do poder que se instala em Brasília.

Novo comandante do Gabinete de Segurança Institucional do governo petista - antigo passageiro das hostes do governo tucano do presidente Fernando Henrique Cardoso -, o general José Elito Carvalho Siqueira disse ao tomar posse do cargo que não se deve "ficar vendo situações do passado", ao falar sobre sobre a possibilidade de criação da Comissão da Verdade para investigar a violação de direitos humanos ocorrida durante o período da ditadura militar (1964-1985).

Na manhã do dia seguinte, ao assumir seu posto no governo Dilma, a nova ministra da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Maria do Rosário, defendeu a criação da Comissão da Verdade o mais rápido possível. E foi incisiva na argumentação: "É mais do que chegada a hora do Estado brasileiro prestar esclarecimentos".

Tem mais, muito mais, e como alertava o personagem vivido por Jô Soares na antiga chanchada do cinema nacional do começo dos anos 60: "Vai dar bode!". Por enquanto, porém, fiquemos por aqui neste complicado começo de ano e de governo.

Fonte : Terra
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