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Dicas de Português - Coesão e coerência

As escolas públicas de Pernambuco foram as últimas colocadas no IDEB, teste feito de quinta a oitava série nas escolas de todo o Brasil. Conclusão do fato: não sabem pensar e por isso não sabem escrever os alunos egressos dessas escolas. Seus textos, por isso, não têm coesão nem coerência.

Enquanto coerência aponta para ligação ou harmonia entre situações, elementos e idéias, estabelecendo relações para fora do núcleo, coesão volta-se para si mesmo, sendo a união íntima das partes de um todo.

Para o usuário comum, ser coerente é manter uma relação de unidade entre o que se diz e o que se faz; por sinal, qualidade pouco encontrada nos candidatos a cargos eletivos. E ser coeso é ser íntegro, traço igualmente raro entre as personalidades públicas, o que nos faz hesitar na escolha de candidatos, nesta época de eleições.

Mas não estamos aqui para falar em política e sim sobre esses conceitos adotados no estudo da linguagem humana. No início, eram apenas analisadas as relações frasais, a gramática da frase. Com o desenvolvimento da Lingüística, compreendeu-se que esta era uma abordagem necessária mas não suficiente para compreendermos a construção do sentido. Foram iniciados então, na segunda metade do século XX, os estudos da chamada Lingüística de Texto, que extrapola as relações frasais estudadas na gramática tradicional.

Com ela surgiram os conceitos de coesão e coerência textuais, que hoje em dia entram em qualquer programa de curso e de concurso, mais como um modismo do que propriamente como conceitos teóricos entendidos e processados.

Coesão pode ser definida como a ligação de natureza gramatical ou lexical entre os elementos de uma frase ou de um texto, e coerência, como o conjunto de relações que une o significado de sentenças ao mundo exterior, muitas vezes baseado no conhecimento partilhado entre os usuários de uma língua: é correto, gramaticalmente, dizer que o açúcar é salgado, mas é incoerente.

Trazendo para a prática da escrita estas noções, observamos ser a sua ausência o maior problema da língua escrita hoje. São comuns os textos desconexos lingüisticamente ou desconectados da realidade, isto é, sem coesão nem coerência.

Considera-se hoje este o problema maior nos textos escolares, pois testemunha a ausência de um pensamento lógico naquele que escreve: é mais grave do que desvio de grafia ou de sintaxe.

Nos vestibulares, a incidência é grande e eles não percebem a falta de nexo no que escrevem. Creditamos grande parte dessa enumeração caótica à colcha de retalhos em que se transformou o mundo da informação. Não se lêem reportagens longas nem artigos: a leitura é dinâmica e salteada. Pinçam-se frases, faz-se colagens dos assuntos do dia. O controle remoto leva-nos a pular da tragédia do Iraque para uma festa no Tahiti, entrando numa convenção política e concluindo com uma pegadinha do Faustão (entre as duas, há semelhanças e coincidências). Acabamos não sabendo juntar os dados da realidade, nem interpretar o que vemos pela recepção fragmentada.

A internet junta-se à TV na diluição dos fatos que se transformam em virtualidades. O resultado nas mentes em formação é bem mais grave e acentuado do que entre o que pertencem à geração pré-controle remoto e internet, para quem foi mais fácil entender o mundo numa seqüência lógica. Por isso, podemos encontrar em notícias de jornal frases como “Foi criada na Paraíba uma comissão para o rompimento da barragem de Camará” e não termos dificuldades para entender. Mas estabelecer um paralelismo do tipo: X é míope e é gaúcho torna-se sem lógica pois não se podem somar coisas heterogêneas, como ensina a aritmética.

Enfim, cada vez mais distantes da coesão e da coerência, navegam, alunos e escolas, nos mares do texto, sem descobrir a terra firme do sentido bem construído.

Fonte: http://pe360graus.globo.com/educacao/ed ... ENCIA.aspx