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Dicas de Acentuação do Português

Acento, do latim ad cantum (para o canto) eram as marcas que a palavra recebia para a entonação correta (o canto). É homônimo de assento (para sentar). O latim possuía dois tipos de acento, de acordo com a duração da sílaba, longa ou breve.

Em português, o que prevaleceu foi a tonicidade, a intensidade da emissão da sílaba em relação às demais. Para marcar esta tonicidade, usa-se o recurso gráfico, indicando a sïlaba pronunciada com mais força (tônus), distinguindo-a das demais átonas (sem força). Este recurso gráfico pode representar o som aberto (acento agudo) ou fechado (acento circunflexo).

Muitas línguas, como o inglês, não adotam o recurso da acentuação gráfica. Outras, como o francês e o espanhol também adotam, se bem que em português seja mais numerosa e variada a ocorrência.

O acento tônico nem sempre é representado pela notação gráfica: presidente, candidato, vaidoso, prepotente, não têm sua sílaba tônica marcada na grafia. É que as palavras cuja sílaba tônica é a penúltima - as chamadas paroxítonas ou graves - são o tipo mais ocorrente em português e só em casos especiais necessitam do acento gráfico. Item, por exemplo, não merece acento, mas é, com freqüência, agraciado com um. Professor, Brasil, ensinar, estopim, têm a tonicidade na última sílaba, mas não precisam marcá-la. São vocábulos oxítonos ou agudos que, dito de forma simplificada, recebem marca apenas quando terminam em a(s), o(s), e(s),em, ens. Os terminados em consoantes, como os exemplos acima, têm normalmente a sílaba final tônica.

O português brasileiro tem mais oxítonos que o europeu, pelos termos herdados do tupi e das línguas africanas: mirim, caju, xará, imbu, orixá, exu. Enquanto o francês prima pelos agudos ou oxítonos e o italiano pelos proparoxítonos, em português, língua de ritmo grave, há rejeição às proparoxítonas herdadas dos termos eruditos latinos. Daí serem chamados de esdrúxulos (esquisitos), serem pouco numerosos, e serem todos, sem exceção, acentuados. A mudança ortográfica que preconizava a queda deste acento não foi aceita.

Assim, em frases como “A dívida pública está a nos tirar o fôlego”, os termos sublinhados continuarão a merecer o acento gráfico junto com o assento em nossas preocupações. As proparoxítonas eventuais (paroxítonas terminadas em ditongo oral crescente) também permanecem acentuadas: A estratégia do ministério é uma espécie de escárnio. Há tendência no português popular brasileiro para evitar ou reduzir o proparoxítono, seguindo a linha de evolução do latim para o português, onde esta mudaça da sílaba tônica foi freqüente. Árvore é pé de pau, estômago é estombo, no falar do povão.

Como notação gráfica prestes a ser aposentada está o trema. Como servidor público, vai ser demitido sem vantagens. Mas, continua na ativa, ainda, e deve ser usado em gu e qu com u pronunciado diante de e, i. Temos ainda a crase, fusão de dois a, sendo um deles preposição e o outro, artigo feminino, o caso mais comum. A cedilha (pequeno z) é outra notação que tem regras fixas de uso: jamais pode ser usado diante de e , i : mas, às vezes, temos surpresas com vestibulandos e até universitários: açessoria, remorço.

As notações gráficas complicam a vida do usuário do português, diante do teclado do computador, tão anglófono na sua origem. O til (um pequeno n) é muito freqüente porque várias terminações latinas foram reduzidas ao denominador comum de ão, servindo ele para marcar o timbre nasal também em outros casos: maçã, põe. Quanto ao acento diferencial de timbre aberto/ fechado, caiu em 71, restando em algumas palavras, quase todas iniciadas por p.

A língua é um sistema interdependente e a acentuação não deve ser abstraída do contexto geral. Este é apenas um recurso didático. Na língua, como na vida, não se esgotam os problemas em abordagens esporádicas. Em ambos os casos, há sempre o que aprender e o que melhorar.

Nota: Atendendo a pedido de leitores, aqui está a origem detalhada de privilégio, formação latina clássica de priv (priva) + i de ligação + leg (lex) + ium (sufixo). No latim tardio, uma privata lege(m): lei particular ou privada.


Fonte: http://pe360graus.globo.com/educacao/ed ... UACAO.aspx