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Descomplicando Tintim

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Boa parte das minhas fantasias em viajar pelo mundo vem de uma inspiração facilmente identificável: um certo garoto topetudo de uma história em quadrinhos chamada “As aventuras de Tintim”. Cenários exóticos, tramas mirabolantes, segredos a serem desvendados, uma curiosidade infinita - tudo isso fazia (e faz) parte dos títulos que eu ia ganhando aos poucos do meu pai e ia saboreando com bastante economia, naquela ansiedade infantil (uma das poucas que eu acho que faz bem conservar até a idade adulta) de não querer que um livro que você estava adorando acabe logo (cada livro - ou álbum - do Tintim tem rigorosamente 62 páginas - e eu mal podia acreditar que já estava perto do fim quando passava da 40…).

De quantas maneiras eu gostava de Tintim? Bem, deixe-me listar algumas. Os xingamentos do Capitão Haddock, por exemplo: onde mais um garoto de 10, 12 anos, poderia aprender palavras tão exóticas como “cornamusas”, “flibusteiros”, “sacripantas” ou “cataplasmas”? E estes são só alguns exemplos tirados de apenas uma história, “O segredo do Licorne”… Ou as hilárias seqüências de perseguição e trombadas. As proposições absurdas do professor Girassol. As peripécias de seu cachorro de estimação, Milu - geralmente relegadas a um canto do quadrinho, mas sempre muito eloqüentes. O poder absurdo de dedução do próprio Tintim (que delícia que era, às vezes, chegar às conclusões sobre os mistérios da trama quase junto com o personagem principal!). E a capacidade do jovem repórter (nem sempre isso ficava claro, mas essa sempre foi a profissão de Tintim) de fazer amigos em qualquer lugar do mundo (algo que eu provavelmente registrei de maneira subliminar, e só fui compreender mesmo quando eu já era “crescidinho” e fui fazer minhas próprias viagens).

Uma das decepções (brandas) que tive ao ver as edições recentes das aventuras (atualmente editadas pela Cia. das Letras) foi não encontrar a galeria de retratos com os rostos dos amigos que Tintim colecionou em suas histórias que ilustrava as capas internas dos volumes publicados nos anos 70 (os que eu li pela primeira vez). Era um prazer especial reconhecer cada face daquelas, num jogo silencioso de descoberta (daqueles que você já havia encontrado) e expectativa (de encontrar algum deles numa história que você ainda não tinha visto). Se você só conheceu Tintim por essas edições mais modernas, vale a pena procurar por uma mais antiga em algum sebo (basta um volume para você encontrar a galeria completa).

Mas, como disse, essa é uma decepção branda, que pouco pesa diante do enorme (e perene) prazer de reler uma das suas aventuras. Por que eu resolvi reler essas aventuras? Uma série de eventos e coincidências. Primeiro, uma resenha publicada em meados do ano passado na “Economist”, sobre um livro chamado “Tintin and the secret of literature” (Tintim e o segredo da literatura), de Tom McCarthy (ainda inédito no Brasil). Rapidamente, a crítica descrevia o livro como uma grande paródia pós-modernista, brilhantemente satirizando os estudos analíticos da obra de Hergé - o criador de Tintim. Claro que imediatamente encomendei o livro pela internet. E quando fui lê-lo…

Passagem típica, tirada de um trecho onde McCarthy discute o recurso recorrente nas histórias de buscar autoridade em vozes divinas (sempre através do ventriloquismo): “Essa estratégia pode funcionar, mas é perigosa. Por que? Porque afrouxa o cadeado da caixa de Pandora do ateísmo. Mostre a ‘voz de Deus’ saindo de um megafone, ou ‘milagres’ realizados com a ajuda de um mecanismo, e você está praticamente sugerindo que Deus pode ser um trambiqueiro”. Profundo? Que tal essa?: ” ‘As jóias da Castafiore’ é infinitamente regressiva. A história acumula camadas de significados como panquecas, tijolos de brinquedo, folhas de acetato: a camada dos segredos de família, a camada da comédia maneirista, a camada do comentário midiático, teoria da comunicação, crítica social, e patati et patata, como diria o capitão”. Como levar esses comentários a sério? Como disse a “Economist”, “as melhores paródias são tão boas que o leitor nunca sabe ao certo se o autor está realmente brincando ou não”.

Fato é que a literatura sobre Tintim - e sobre seu criador Hergé (um belga cujo verdadeiro nome era Georges Remi, de cujas iniciais, invertidas e pronunciadas em francês, ele tirou seu pseudônimo) - sempre esbarrou um pouco na pretensão (se eu entrar aqui nessa bibliografia, vou bater o recorde de tamanho de texto!). E o livro de McCarthy chegou com um “timing” impecável: veio justamente na hora certa para esvaziar as teorias mais absurdas justamente quando se comemora o centenário de Hergé (1907-1983).

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Por causa dessa data, vários rumores de que o tão prometido filme de Steven Spielberg sobre Tintim finalmente vai sair começaram a circular na internet. Animado com isso, fiz um rico passeio por sites sobre esse meu herói (a lista é imensa, mas se eu tiver de recomendar um só, vá a objectiftintin - em francês). E fui percebendo que a expectativa para o centenário era enorme. E, entre tantas comemorações, nenhuma talvez fosse tão significativa quanto a exposição montada no Beaubourg - o Centro Cultural Georges Pompidou. A mesma que eu tive a chance de visitar na minha passagem recente por Paris.

A exposição em si não é grande. Fica em cartaz até dia 19 deste mês e está montada no subsolo do edifício. O enorme cartaz com o foguete de “Rumo à lua” (e “Explorando a lua”) na fachada do centro cultural chama mais a atenção do que a própria mostra. Mas quem há de resistir, logo na entrada do espaço do hall principal, às ilustrações espalhadas por todo o chão no caminho das escadarias que nos levam ao subsolo? As estrelinhas que colorem os quadrinhos que mostram acidentes nas histórias (marca registrada de Hergé) se misturam com vitupérios ditos pelo Capitão Haddock e te conduzem ao que realmente interessa um “tintinólogo”, ou mesmo a quem conhece o herói apenas superficialmente, mas já se apaixonou por ele: a evolução de um personagem universal (nosso jovem repórter tem suas aventuras não apenas traduzidas em mais de 50 línguas, mas agrada a leitores de qualquer geração).

Desde de os esboços criados por Hergé, aos primeiros quadrinhos publicados pelo “Petit Vingtième” (o suplemento infantil do jornal belga “Le Vingtième Siècle”), a revelação desse passado - visto no original e não apenas nas reproduções que sempre aparecem nos livros de referência - tirou meu fôlego. Um vídeo com uma rara entrevista com o próprio Hergé foi além da minha curiosidade em conhecer o autor por trás da obra e revelou um artista bastante lúcido (apesar de toda a fantasia em torno dele). E a coleção de capas de Natal da revista do Tintim (”a cada quinta-feira”, como ela anunciava logo abaixo do nome do personagem) certamente provocou bem de perto meus instintos cleptomaníacos (que eu nem sabia que tinha!). A exposição evocava uma sinfonia solene (se não um pouco maluca), com a indescritível voz de Bianca Castafiore cantando ao fundo: “eu rio de me ver tão bela neste espelho” - sua “ária” mais famosa, pinçada da ópera “Fausto” de Gounod. Doce música…

Reencontrar todas aquelas expressões de Tintim - ele mesmo um desenho de um rosto extremamente simples, sem muitas feições - e seus amigos foi um grande presente. Capaz de me fazer reler todos seus álbuns - desta vez numa ordem cronológica (já estou em “O tesouro de Rackham, o terrível”) e rever muito do que foi escrito sobre criador e criatura (o catálogo da exposição - que pode ser encomendado pela internet - é especialmente lúcido nos comentários da obra e da biografia de Hergé, além de nos brindar com ângulos ainda não explorados das ilustrações que os fãs memorizaram desde a infância).

Capaz ainda de ter vontade de escrever mais e mais sobre Tintim. Mas aí - e Tom McCarthy que me perdoe -, eu acho que estaria complicando demais…

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Fonte: http://colunas.g1.com.br/zecacamargo/20 ... do-tintim/