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Criaturas das profundezas do Brasil

Indo além dos estudos e da preservação das tartarugas marinhas e realizando testes de anzóis circulares, associados a armadilhas para coleta científica, o TAMAR está montando um banco de imagens inéditas de animais marinhos raros, além de desenvolver tecnologia capaz de manter vivos parte dos seres coletados.

Um novo espaço foi inaugurado no centro de visitantes do Projeto, na Praia do Forte, litoral norte da Bahia, que incluirá uma exposição fotográfica permanente acompanhada de textos, gráficos e ilustrações sobre o tema. E contará ainda com um ambiente climatizado, dos poucos do mundo, com água gelada e pressão compatível com a de onde vivem tais criaturas, onde o visitante será apresentado a esse universo pouco explorado do planeta Terra.
 
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São diversos tipos de animais, passando por peixes, corais, crustáceos, moluscos e muitos outros, que habitam as desconhecidas águas profundas e geladas do nosso litoral. Muitos desses seres são pouco conhecidos, organismos que possuem formas estranhas e cores exuberantes. Alguns são iguais aos seus irmãos que vivem nas águas que circundam os pólos norte e sul; outros, similares a parentes de águas rasas dos recifes de corais; a grande maioria, entretanto, é adaptada precisamente para a vida em um ambiente diferenciado e exclusivo, a imensidão do lusco-fusco profundo e tridimensional.


Não estamos falando dos famosos peixes abissais que vivem na escuridão absoluta em profundidades a partir dos 1000 metros. Mas, isso sim, de animais que vivem entre os 200 e 1000 metros, acostumados a viver na penumbra que varia em equivalência desde a luz da lua cheia à da lua nova ou mesmo à ainda mais tênue luz das estrelas, a depender da profundidade.


A estas profundidades, os tipos dominantes de peixes têm o dorso negro, flancos prateados e linhas de fotóforos (órgãos luminosos) suaves no ventre, o que os faz passar despercebidos a predadores: o dorso simula a escuridão abissal, os flancos refletem a pouca luz circundante e os fotóforos mesclam-se à penumbra que vem da superfície, eliminando sua silhueta. Por outro lado, os camarões e caranguejos pelágicos que vivem na coluna d’água, são avermelhados superiormente e transparentes na parte inferior – como a freqüência de luz vermelha não chega a esses profundidades, parecem negros quando vistos de cima e sua transparência ventral reflete a parca iluminação circundante.

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Naturalmente olhos grandes são também fundamentais, capazes de capturar os menores resquícios de luminosidade.

Se no resto do planeta Terra espécies muito especializadas de animais geralmente são mais suscetíveis à extinção, aqui ocorre o contrário. Uma vez que as características físicas desse ambiente notável permanecem inalteradas por séculos, os seres especializados que aí vivem são favorecidos por suas adaptações únicas, derrotando implacavelmente imigrantes menos capacitados.


Há duas zonas principais a serem consideradas nessa região: a batipelágica, que corresponde à coluna d’água, longe do solo e da superfície e a bêntica, o fundo do mar propriamente dito. Um fenômeno muito interessante e que ocorre por todo tempo nessas zonas, é a chamada “neve marinha”. Ela é constituída de pedaços, maiores ou menores, de organismos que lentamente afundam na coluna d’água. Essa “neve”, que inclui partes de plantas e animais, é a principal fonte de alimento primário para os animais de tais profundidades. A partir dela é que peixes, lulas e crustáceos pelágicos se alimentam, e estes são devorados por animais progressivamente maiores, sendo, assim, a base da cadeia alimentar.


Na zona batipelágica, vive o peixe-víbora (Chauliodus sloani), com dentes formidáveis e imensos para seu tamanho (28 cm) e que os utiliza para abocanhar peixinhos que vivem de catar partículas da “neve marinha”. Seu perfil, suas cores e a presença de fotóforos são fundamentos da adaptação exigida para a vida em tal ambiente. Os olhos-de-ovo (Eumegistus brevorti), vorazes e ágeis, com mais de 50 cm de comprimento e chegando a pesar cinco quilos, devoram o peixe-víbora, bem como crustáceos, lulas, e outros peixes. O olho-de-ovo é um peixe especial, muito especial... Até o início das pesquisas do TAMAR, apenas 11 exemplares eram conhecidos em todo Atlântico.

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Graças ao conhecimento que vem sendo adquirido com tais pesquisas, que propiciaram a captura de algumas dezenas de novos exemplares, hoje sabemos bastante sobre seus hábitos, incluindo fases de crescimento e reprodução. Apenas para dar uma idéia, esses peixes vivem por décadas e, a cada período reprodutivo, as fêmeas liberam centenas de milhares de ovos, o que é considerado alto índice de fecundidade para peixes de tais profundidades. Assim, aprendemos que não só o olho-de-ovo não é raro como se pensava como descobrimos, a cada mês, novos dados sobre sua biologia ímpar. Aliás, um primo dele, o facú (Taractes rubescens), também vive nessa zona, sendo esta a primeira vez que se sabe de sua presença no Brasil.

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Ainda nessa zona, peixes pequenos nadam em grandes cardumes, como as delgadas barracudinas (Lestidium atlanticum), que jamais haviam sido registradas para a região e que, com 20 cm, são presas essenciais para os predadores de topo. E, ainda, o língua-de-prata (Steindachneria argentea), registrado aqui pela primeira vez para o Brasil, e o raríssimo galo-de-crina (Caristius maderensis), tão difícil de ser observado que o único exemplar conhecido de águas do Brasil foi extraído do estômago de um olho-de-ovo! Da mesma forma, a enguia-lombriga (Asarcenchelys longimanus), da qual só se conheciam dois exemplares em todo o mundo, também faz parte da “dieta” do olho-de-ovo.

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Há também camarões, lulas, polvos e caranguejos batipelágicos, a maioria dos quais conhecemos também apenas pelo conteúdo estomacal dos peixes capturados com a técnica dos anzóis circulares. A tamburutaca-enguia e o camarão-de-barriga-azul são dois belos exemplos desses invertebrados da coluna d’água.

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Já na zona bêntica, muitos peixes têm outro “jeitão”: são escuros ou vermelhos, mais atarracados, freqüentemente equipados com verdadeiras armaduras de espinhos ou escamas ósseas, para desencorajar ataques vindos de cima e, muitas vezes, com “pernas”, prolongamentos de suas nadadeiras pélvicas, que lhes permitem cavocar o solo em busca de presas, “andar” ou permanecer imóveis a certa altura do fundo. A cabrinha-vermelha (Peristedion sp.), de 20 cm, é um bom exemplo de “andarilho”.

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Já os vorazes trairados (Aulopus filamentosus), com até 45 cm, o lagarto-do-fundo (Saurida normani), com 30 cm – capturado pela primeira vez em águas do Brasil – e o mangangá-fundão (Pontinus longispinnis), de 30 cm, são dos que ficam imóveis, aguardando a passagem de peixinhos ou camarões, que engolem de uma bocada só. Ficar imóvel, entretanto, não é o caso do carenado (Gephyroberyx darwini), registrado pela primeira vez para a região e que, com seus 45 cm e uma verdadeira couraça de espinhos na cabeça, persegue peixinhos menores e camarões.

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