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Crenças

Crenças

Quantas das nossas crenças são atingidas após detalhada investigação de uma determinada afirmação? Quantas graças ao nosso sistema de filtragem de visão do mundo? Ou seja, quantas das nossas crenças são devidas a crenças anteriores sobre a natureza das coisas? Não rejeito a astrologia devido a tê-la estudado em pormenor e concluido que estava cheia de erros. O mesmo em relação a auras, viagens astrais, raptos por extraterrestres, visões, etc. Se um vendedor me diz que um carro faz 200 quilómetros com um litro de gasolina em água, não preciso de investigar a questão; contudo, formo uma opinião sobre a honestidade dele. Se uma vizinha me diz que é a rainha de Inglaterra disfarçada, não acredito e nem me dou ao trabalho de investigar a história. Se uma fonte credivel me diz que o imperador do Japão se metamorfoseou num insecto gigantesco, não vou ao Japão verificar a história. Em vez disso perco a confiança nessa fonte. Sinto que estou justificado e que não estou a ter uma mente fechada por chegar a estas crenças sem investigação detalhada. O espirito aberto não pode ser confundido com credulidade.

Se alguem me diz que tem uma cascavel como bicho de estimação, não duvido necessariamente dele, embora ache estranho. Se um advogado me diz que há uma lei na California que proibe descascar laranjas em quartos de hotel, não deixo de acreditar porque a lei me parece bizarra. Se um fisico me diz que há quatro forças fundamentais na natureza--gravitacional, electromagnetica, nuclear forte e nuclear fraca--não me rio apesar de achar estranho e mesmo não compreender toda a explicação das forças. Ou seja, não rejeito automáticamente uma ideia só porque me parece estranha.

Por outro lado, não suspendo o julgamento sobre uma ideia só porque não tenho provas de que seja falsa. Há duas coisas que uma pessoa razoável deve fazer perante uma afirmação que não conhece ou que acha estranha: quem faz a afirmação e que tipo de afirmação é. Uma afirmação feita por um fisico no campo da fisica merece ser tratada de um modo diferente que uma afirmação feita por um parapsicólogo sobre percepção extra sensorial. Fisicos falando de fisica não teem uma longa história de fraudes, ilusão, falhas nas experiências, erros, focarem-se em palermices como dobrar colheres com a mente, ou mover saleiros sem lhes tocar. Apesar dos fisicos saberem tão bem como os paranormais que há mais de uma maneira de dobrar colheres, eles não usam esse facto para apoiar explicações alternativas e superfluas para fenómenos normais. E, apesar dos fisicos saberem tão bem como os paranormais que o observador afecta a observação, não usam esse facto para afirmarem que o resultado negativo de um teste de uma hipótese é devido à influência psiquica do céptico. Mais, quando os fisicos não conseguem explicar algo, não usam isso para afirmar a crença em forças ocultas. Finalmente, fisicos, ao contrário dos paranormais, não teem uma história de afirmações e crenças baseadas em testemunhos de pessoas de que gostem e em que confiam. Fisicos, em regra, não afirmam uma descoberta e restringem acesso às provas de modo que não crentes a possam repetir, ou afirmando que não é possivel reproduzi-la, ou que deixaram de se verificar as condições ou que não querem repeti-la. Imagine um fisico anunciando que descobriu uma nova particula sub-atómica que só ele e os seus amigos podem observar, ou que a particula já não pode ser observada pois foi para outra galáxia, ou que tem o poder de se disfarçar como uma particula vulgar, frustrando assim qualquer tentativa de verificação.

Claro que há cientistas que cometem fraudes, erros, incompetentes, secretos, e criativos na construção de hipóteses ad hoc para proteger as suas teorias. Há e haverá os que procuram formas de oculto. Isto significa que uma afirmação feita por um fisico no campo da fisica pode ser falsa. Não significa que o razoável a fazer é rejeitar como provavelmente falsa qualquer afirmação feita por qualquer fisico. Isso seria absurdo. Um pensador critico deve ficar aberto a considerar afirmações feitas por fisicos no campo da fisica devido a quem o afirma e ao tipo de afirmação. Pela mesma razão, não temos de estar de espirito aberto para afirmações de paranormais sobre fenómenos paranormais.

Um céptico que investiga casas assombradas ou faz anos de investigação em astrologia tem o espirito bem aberto. Mas, do meu ponto de vista, vai muito alem da linha do dever. Admiro estas pessoas pela sua tenacidade e dedicação à causa da verdade. Por outro lado, não critico os que pensam que investigar auras é uma perda de tempo. A hipótese de haver aí uma descoberta que nos ajude a compreender melhor a natureza humana ou a nossa mente é demasiado próxima do zero. No seu melhor essa investigação continuará a dar-nos provas de que as crenças humanas se baseiam em desejos e ilusões e não em factos e evidências.

A minha regra é perguntar "o que é mais provável? que este tipo tenha razão esteja enganado, ou seja uma fraude?" Para questões como viagens astrais ou rapto por ovnis, a minha resposta é que esteja errado ou seja uma fraude. Para cascaveis como bichinho de estimação ou lagartos de duas cabeças, dou-lhes o benefício da duvida. Para cavalos voadores ou aparições da Virgem, ilusão ou fraude parece-me o mais provável. Afirmações de que certos ossos indicam que antigos não mamiferos podiam voar, fazem-me suspender o julgamento em vez de o rejeitar. E por aí fora. Porque é que os paranormais usam regras diferentes? O que sei é que eles não são menos inteligentes que os cépticos. Cada lado tem a sua quota de loucos e ninguem parece ter a quota maior. O mesmo não se passa quanto a comparar incompetencia, ingenuidade e capacidade de ser enganado. Os paranormais parecem ter uma parte desproporcionada destes. Quanto a fraude, pensava que havia muito mais entre os paranormais que entre os cientistas. Hoje em dia tenho duvidas. Falsificar dados para apoiar a teoria de alguem parece não ter quaisquer limites.

Fonte: http://brazil.skepdic.com/crencas.html
 
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