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Como funcionava o cérebro de Einstein

Introdução a Como funcionava o cérebro de Einstein

Nos anos finais de sua vida, Albert Einstein sabia que estava doente e recusou operações que poderiam ter salvo sua vida. Deixou suas vontades claras: "Quero ser cremado, para que as pessoas não venham cultuar meus ossos" [fonte: Paterniti]. Einstein morreu em 18 de abril de 1955, de um aneurisma rompido na aorta abdominal, e seu desejo foi realizado, pelo menos quanto aos ossos: as cinzas do cientista foram espalhadas em local não revelado. Mas com o cérebro de Einstein, a história foi outra.

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Durante a autópsia, conduzida no Hospital de Princeton, um patologista chamado Thomas Harvey removeu o cérebro de Einstein -- o cérebro que havia dado ao mundo pensamentos revolucionários como E=mc2, a teoria da relatividade, uma compreensão da velocidade da luz e a idéia que levou à construção da bomba atômica. Harvey segurou em suas mãos o cérebro que havia produzido todos esses pensamentos. E ficou com ele.

Mistério sem solução: o que Sandra Witelson descobriu
O trabalho da Dra. Diamond havia atraído imensa atenção da imprensa, e terminou exposto como deficiente em termos de execução. Em 1996, uma pesquisadora da Universidade do Alabama chamada Britt Anderson publicou novo estudo, muito menos alardeado, sobre o cérebro de Einstein. Ela descobriu que o córtex frontal de Einstein era muito mais fino que o normal, mas continha neurônios agrupados com mais densidade [fonte: Hotz]. Anderson disse a Thomas Harvey que uma pesquisadora da Universidade McMaster, em Hamilton, no Canadá, estava estudando se o agrupamento mais denso de neurônios no córtex explicava as diferenças entre os cérebrosdos homens e os das mulheres. Embora os cérebros dos homens sejam maiores, as mulheres têm neurônios agrupados de forma mais densa, o que pode significar que eles se comunicam com mais rapidez.

Harvey anotou o nome da pesquisadora e lhe enviou um fax sucinto: "A senhora estaria disposta a colaborar comigo em um estudo do cérebro de Albert Einstein?" [fonte: Hotz]. A Dra. Sandra Witelson, a pesquisadora em questão, respondeu afirmativamente. O que Witelson tinha em seu favor, ao contrário de outros pesquisadores, era uma grande coleção de cérebros cujos índices de QI haviam sido registrados. Os dados sobre os pacientes dos quais os cérebros provinham revelavam também seu estado geral de saúde física e psiquiátrica. Isso evitaria confusões quanto ao grupo de controle, como as acontecidas no trabalho de Diamond -- os 35 cérebros masculinos utilizados tinham QI médio de 116, ligeiramente superior ao normal. (Witelson também utilizou 56 cérebros femininos para comparação.) A pesquisadora vinha trabalhando há décadas junto a médicos e enfermeiras a fim de obter cérebros para suas pesquisas. Com isso, tinha a capacidade de conduzir o mais amplo estudo do tipo.

Harvey levou o cérebro de Einstein para o Canadá, e Witelson pôde usar cerca de um quinto dele em seu estudo -- uma porção maior do que a oferecida a qualquer dos pesquisadores anteriores [fonte: Altman]. Ela selecionou porções do lobo temporal e do parietal, e estudou atentamente as fotos que Harvey havia obtido do cérebro de Einstein no momento de sua morte. Ela percebeu que o sulco lateral quase não existia no cérebro de Einstein. O sulco lateral separa o lobo parietal em dois compartimentos distintos, e sem essa linha divisória o lobo parietal de Einstein era cerca de 15% maior que o de um cérebro médio [fonte: Witelson et al.].



A depender da versão em que você escolhe acreditar, Harvey ou fez algo de maravilhoso pela ciência naquele dia ou não passava de um ladrão de sepulturas. Einstein havia participado de estudos, durante sua vida, para determinar o que poderia ter tornado o seu cérebro diferente, e pelo menos um de seus biógrafos alega que ele desejava que sua massa cinzenta fosse estudada depois de sua morte [fonte: Altman]. Outros afirmam que o cérebro estava entre os restos que Einstein desejava ver cremados, e a indignação se agravou ainda mais quando surgiu a informação de que alguém havia removido os globos oculares de Einstein como souvenir [fonte: Paterniti].


De certa maneira, porém, Einstein conseguiu o que queria. Ninguém pôde cultuar os restos de seu cérebro, simplesmente porque apenas Harvey sabia onde ele estava depositado. Depois que o incidente ganhou manchetes, o médico obteve permissão de um dos filhos de Einstein para estudar o cérebro, com resultados a serem publicados em revistas científicas respeitáveis. Harvey acreditava que não demoraria a descobrir o que tornava o tal cérebro diferente, especial -- certamente ele revelaria rapidamente os seus segredos. Mas não surgiu estudo algum nos anos que se seguiram à morte de Einstein, e Harvey, que era apenas um patologista, e não um neurocientista, sumiu com o cérebro.

Marian Diamond e o cérebro de Einstein
Reza a lenda que, quando Albert Einstein nasceu, sua mãe ficou atônita com a cabeça grande e angulosa do bebê [fonte: Hayden]. Mas quando ele morreu, seu cérebro não era maior que o de outros homens de sua idade. Thomas Harvey o pesou como parte da autópsia, e o órgão tinha 1,2 kg [fonte: Hotz]. Harvey o fotografou e depois o dividiu em cerca de 240 partes e preservado em celoidina, uma técnica comum de preservação e estudo de cérebros [fonte: Montagne].


Harvey posteriormente enviaria pequenas porções do cérebro a médicos e cientistas de todo o mundo cujo trabalho ele considerava interessante. Os especialistas selecionados deviam reportar suas constatações a ele, e o trabalho seria publicado para que o mundo todo soubesse o que acontecia dento do cérebro de um gênio.


Harvey e o mundo teriam muito a esperar. O cérebro de Einstein tinha tamanho normal, e parecia ter um número normal de células cerebrais de tamanho médio. Harvey persistiu em sua crença de que alguém encontraria alguma coisa, e sempre que um repórter o procurava, ele dizia que dentro de um ano ou pouco mais alguma coisa seria publicada. Em certo momento, Harvey foi localizado em Kansas, onde ele guardava o cérebro em uma vasilha dentro de uma caixa de cidra, ao lado de um refrigerador.

Então, em 1985, Harvey enfim tinha algo a reportar. A Dra. Marian Diamond, que trabalhava na Universidade da Califórnia em Berkeley, estava estudando a plasticidade dos cérebros de ratos e descobriu que os ratos em ambientes mais enriquecedores tinham cérebros mais robustos. Especialmente, eles tinham maior proporção de células neurogliais em comparação a neurônios, e ela queria determinar se o mesmo se aplicava ao cérebro de Einstein.

Células neurogliaisprotegem e fornecem nutrientes aos neurônios, que trabalham muito mais. De algumas maneiras, as células neurogliais são como que o serviço doméstico dos neurônios -- as células que se comunicam umas com as outras. Ao se comunicar, os neurônios deixam resíduos na forma de íons de potássio. Os íons de potássio se acumulam ao lado dos neurônios, mas essa pilha de lixo impede a comunicação dos neurônios se crescer demais, porque faltaria espaço para descargas adicionais dos íons. As células neurogliais limpam os íons de potássio acumulados, e permitem que os neurônios funcionem ininterruptamente. Elas também absorvem outros neurotransmissores que poderiam prejudicar a comunicação entre os neurônios [fonte: Fields].

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Quando Diamond recebeu seus pedaços do cérebro de Einstein, ela os comparou a amostras de 11 outros cérebros. Reportou que Einstein de fato tinha mais presença de células neurogliais em comparação a neurônios, ante outros cérebros, e propôs a hipótese de que o número de células neurogliais aumentava devido à alta demanda metabólica que Einstein fazia aos seus neurônios [fonte: Burrell]. Em outras palavras, Einstein talvez precisasse de faxineiros de primeira qualidade porque seus pensamentos espantosos causavam muitos resíduos.


Infelizmente, outros cientistas consideram que o trabalho de Diamond seja ele mesmo um lixo. Para começar, as células neurogliais continuam a se dividir ao longo da vida da pessoa. Ainda que Einstein tenha morrido aos 76 anos, Diamond comparou seu cérebro a outros cérebros com idade média de 64 anos, de modo que seria natural que Einstein tivesse mais células neurogliais do que homens mais jovens [fonte: Herskovits]. Além disso, o grupo de controle de Diamond veio de pacientes de um hospital de veteranos de guerra; embora ela pudesse estabelecer que eles não morreram de causas neurológicas, pouco mais se sabia sobre os homens que os forneceram; não havia resultados de teste de QI disponíveis, por exemplo. Einstein não poderia estar sendo comparado a pacientes burros? Outro cientista apontou que Diamond havia fornecido apenas razões numéricas referentes a uma medida, enquanto que, nas palavras dela mesma, havia 28 métodos de medir essas células. Diamond admitiu não ter reportado resultados que não comprovavam sua idéia; o cientista alegou que, se você medir muitas coisas, cedo ou tarde encontra um número capaz de sustentar ou negar qualquer alegação [fonte: Burrell].

O lobo parietal, e isso é um dado importante, responde por capacidades como a habilidade matemática, o raciocínio espacial e a visualização em três dimensões. Isso parecia se enquadrar perfeitamente à maneira pela qual Einstein descreveu seu processo de pensamento: "As palavras não parecem desempenhar qualquer papel", ele disse certa vez. "Há imagens mais ou menos claras" [fonte: Wilson]. O homem que desenvolveu a teoria da relatividadeao imaginar uma cavalgada peloespaço montado em um feixe de luz via suas idéias como imagens, e depois descobria a linguagem necessária a descrevê-las [fonte: Lemonick].

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A hipótese de Witelson é a de que a falta de um sulco lateral possa ter permitido que as células cerebrais se agrupassem de forma mais estreita, o que por sua vez permitiria comunicação mais veloz que a normal. Essa estrutura cerebral também pode ter algo em comum com o retardamento no desenvolvimento da fala em Einstein, e isso suscita questões sobre a utilidade de conhecer esse tipo de informação sobre você mesmo. Se Einstein soubesse que seu cérebro era diferente, talvez até defeituoso, ele teria buscado uma carreira acadêmica?

A essa altura, os cientistas não conhecem o suficiente sobre o funcionamento do cérebro para determinar se o trabalho de Witelson é acurado, ainda que a teoria dela seja a aceita no momento. Para todos os propósitos visíveis, o cérebro de Einstein parece perfeitamente normal, talvez até um pouco danificado, com nada que indique um grande gênio, à primeira vista. Talvez não saibamos nada mais até que haja outro cérebro genial equivalente a estudar; talvez não se possa comparar o cérebro de Einstein a cérebros comuns.


Harvey jamais deixou de lado sua crença em que o cérebro de Einstein revelaria algo de especial. Perto do final de sua vida, depois de levar o cérebro com ele em todas as suas mudanças pelo país, ele o devolveu ao Hospital de Princeton, de onde o havia removido. O cérebro foi entregue ao homem que substituiu Harvey no posto de patologista. O escritor Michael Paterniti, que acompanhou Harvey e o cérebro de Einstein em uma viagem de carro pelo país, propôs no livro "Driving With Mr. Albert" a hipótese de que Harvey tenha escolhido alguém que representasse uma reencarnação dele mesmo, uma hipótese que o patologista que recebeu o cérebro reconhece como válida. "Bem, agora ele está livre", disse o médico a Paterniti sobre a escolha de Harvey. "E eu estou acorrentado" [fonte:Paterniti]. Mesmo que o cérebro de Einstein um dia revele seus segredos, Harvey não os conhecerá, porque morreu em 2007, aos 94 anos. Einstein e o mistério sobre seu cérebro, porém, continuam vivos.


FONTE: http://blogs.abril.com.br/tudoounada/20 ... stein.html