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Cientistas procuram a origem dos manuscritos pelo DNA

O couro animal usado nas páginas dos primeiros manuscritos medievais contém material genético capaz de solucionar antigos mistérios a respeito das obras, segundo nova pesquisa.

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Cortar o papel deu aos cientistas acesso a camadas centrais imaculadas
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Antes do uso disseminado do papel, os livros europeus eram escritos sobre pergaminho feito de couro tratado de bezerros, jovens ovelhas e cabras.

"O que procurava era uma forma de datar e localizar esses manuscritos," disse Timothy Stinson, professor de Inglês da Universidade Estadual da Carolina do Norte. "No passado, analisávamos a escrita e os dialetos" dos escribas que criaram os manuscritos, disse Stinson.

"Mas isso era bastante impreciso," disse, observando que as datas determinadas pelo método poderiam cobrir quase meio século.

Stinson se perguntou se as páginas continham DNA animal intacto o bastante para fornecer informações úteis, então chamou seu irmão, C. Michael Stinson, biólogo da Faculdade Comunitária Southside Virginia. Após vários anos de testes, Timothy Stinson apresentou as descobertas preliminares de seu irmão no encontro anual da Sociedade Bibliográfica da América em Nova York.

Sob a superfície
Outros historiadores medievais e acadêmicos literários já consideraram se um DNA viável poderia ser encontrado nos pergaminhos, explicou Timothy Stinson, mas especialistas em humanidades raramente têm acesso a conhecimento biológico.

"No meu caso, quando isso me ocorreu, tinha alguém de imediato para quem perguntar," disse, se referindo a seu irmão. "Ele sabia exatamente o que fazer e para quais laboratórios enviar os manuscritos."

Ao invés de arriscar os manuscritos de um museu, os Stinson compraram sua própria coleção de folhas de pergaminho de uma obra francesa do século 15. Eles sabiam que séculos de manuseio humano e contato animal haviam provavelmente contaminado a superfície.

"Já escutei casos em que usaram um cotonete para coletar o DNA do pergaminho e acabaram encontrando o DNA de camundongos," disse Timothy Stinson. Então, os Stinson secionaram as margens de suas páginas e as enviaram para um laboratório canadense especializado na extração de DNA antigo.

Já que a contaminação provavelmente fica na superfície, cortar o papel deu aos cientistas acesso a camadas centrais imaculadas.

"Agora precisamos desenvolver uma técnica que chegue ao mesmo resultado sem danificar o manuscrito," disse Timothy Stinson. "Tentaremos repetir os experimentos de forma cada vez menos invasiva."

Um rebanho inteiro
Como queriam que as primeiras experiências tivessem melhores chances de sucesso, os irmãos procuraram por DNA mitocondrial. Esse material genético é transmitido pelas mães e é abundante na célula, facilitando a coleta. Mas fornece menos informações genéticas do que o DNA nuclear, que ocorre apenas uma vez em cada célula.

Os resultados deram aos Stinson razões para acreditarem que as cinco folhas que examinaram vieram de dois animais - ou talvez mais que fossem parentes próximos.

"Em um livro poderia se encontrar uma centena ou mais de animais," disse Timothy Stinson. "Teríamos um rebanho inteiro."

Timothy Stinson quer coletar informação genética do maior número de manuscritos possível para criar um banco de dados que ajudaria acadêmicos a identificar livros através do couro de animais.

Como a data e a localização de alguns dos manuscritos já são conhecidas, tal rede poderia ajudar a determinar a data e origem de outros livros medievais. Além disso, esse tipo de informação pode dar uma idéia de como era a transação de pergaminhos medievais, e colocar um fim a debates sobre obras particulares e mesmo sobre referências escritas nessas obras.

Novas folhas
Sayeed Choudhury encabeça as bibliotecas digitais da Universidade Johns Hopkins em Baltimore, Maryland, que forneceram o financiamento inicial para os primeiros testes de DNA dos Stinson em 2007. Choudhury descreveu a pesquisa como potencialmente revolucionária.

"Quando alguém olha para um manuscrito, não o encara como um valor de banco de dados, mas como um documento físico, que é o mais óbvio," disse Choudhury. Mas "você pode analisá-lo da forma que cientistas e engenheiros analisam dados," observou.

"Você pode começar a rastrear o movimento desses manuscritos ao longo do tempo," acrescentou, comparando o trabalho ao de um epidemiologista que rastreia a disseminação de uma doença.

"Tim nos mostrou que é possível olhar para o material das humanidades em camadas," disse Choudhury. "Não se limitar a ler e observar os manuscritos, mas também procurar o que está dentro deles."

Os Stinson agora estão procurando fundos para outros testes, que custam até US$ 1 mil cada, para investigar o DNA nuclear.

Fonte: http://noticias.terra.com.br/ciencia/in ... 38,00.html