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Cassinos clandestinos funcionam dentro de lan houses

A máfia dos caça-níqueis avança sobre a internet. A exploração ilegal do jogo agora acontece também nas lan houses, lojas que oferecem acesso barato à rede. Assim como nos caça-níqueis comuns, nessa nova versão do golpe é possível manipular resultados e o apostador perde sempre.

Do lado de fora, parece uma lan house como outra qualquer, mas poucas pessoas conseguem entrar. Os únicos com passagem liberada são apostadores que vão ao local para jogar em caça-níqueis.

Acompanhados por um deles, a reportagem voltou ao local com uma câmera escondida.

Repórter: A senhora sempre vem aqui?
Apostadora: Bastante vezes.
Repórter: A maioria das vezes perde ou ganha?
Apostadora: Só perde.
Repórter: Hã?
Apostadora: Só perde.

Em um anúncio na internet, um homem de Belo Horizonte oferece o programa usado nas lan houses de fachada. Por telefone, ele explica que é possível reter o total dos valores apostados e enganar os clientes, não pagando um centavo de premiação.

Golpista: Você pode configurar a retenção individualmente para cada terminal e para cada jogo.
Repórter: De quanto a quanto que dá para reter assim?
Golpista: Olha, pode reter de 20 a 80%.
Repórter: Ah, tem um leque grande, né?
Golpista: Sim, pode reter até 100%, até 99% pode reter.

Os programas também podem ser encontrados nas ruas. Em uma rua de São Paulo, eles são vendidos livremente.

Ambulante: Dentro dele tem as instruções, como fazer.
Repórter: Para instalar?
Ambulante: Isso, para instalar.
Repórter: Esse aqui é o mesmo jogo que encontra em loja?
Ambulante: Não, isso não acha nunca, isso é ilegal.
Repórter: Hã?
Ambulante: É ilegal, isso não acha não.

Os programas são baixados de sites estrangeiros e não são instalados no computador. Ficam em um pen drive - um dispositivo de armazenamento de informações - sempre ligado na máquina. Se a polícia chegar, basta retirar o pen drive e os jogos desaparecem.

É o que explica um golpista de Salvador, que até fez um vídeo para vender a novidade. “Ele vai tirar o pen drive e os jogos vão todos se fechar, como você pode ver. Está tudo fechado, fica tudo fechadinho, bonitinho. E os créditos, quando botar de novo, vão continuar. Você pode ver, aqui está o servidor, fecha o sistema também, não fica nada na máquina”, diz no vídeo.

É assim que o dono de uma dessas casas consegue tranqüilidade para tocar o negócio na capital gaúcha.

Repórter: Se acontece de a polícia fazer uma operação?
Funcionário: E aí que a gente derruba o sistema todo, não pega nada. Não pega. Ele vai levar uns 20 segundos para desligar tudo. Você precisa de 20 segundos. O que funciona aqui? Ah, isso aqui é uma lan house.

Policiais envolvidos
O esquema não depende apenas da tecnologia, inclui corrupção. Nesta falsa lan house, um funcionário afirma que policiais dão cobertura.

“A contravenção é só apenas a ponta do iceberg de uma criminalidade muito maior que envolve lavagem de dinheiro, envolve corrupção, envolve uma série de crimes. É importante que a sociedade tenha consciência que são grupos articulados. Inclusive quando tem esses provedores em outro país significa que há uma interligação, uma interlocução entre esses grupos locais e esses grupos de outros países. Isso significa organização criminosa”, afirma o promotor federal Gerson Daiello.

Famílias destruídas
Organização criminosa que este homem conhece muito bem. Ele vive um drama familiar. A mulher dele é uma jogadora compulsiva e passa horas em falsas lan houses.

"Há dias que ela perde R$ 300. A aposentadoria dela vai toda por água abaixo, vai tudo nas máquinas, empréstimos. Hoje, ela deve mais de R$ 12 mil nesses empréstimos consignados em função de jogo”, afirmou o marido, que não quis se identificar.

"Tem também o aspecto da convivência, que se tornou um inferno. Essa noite mesmo chegou em casa às 3h. Eu já fiz questão de levá-la ao profissional, indiquei, mas ela se nega, acha que não é doente, que doente sou eu”, diz.

Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,, ... OUSES.html