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Bastidores de Luxa no Flu: churrasco, discurso inflamado, fritura e 'surpresa'

Depois de duas semanas balançando no cargo e nove jogos sem vencer, Vanderlei Luxemburgo foi demitido do Fluminense na tarde da última segunda-feira. Em pouco mais de três meses, o treinador comandou a equipe em 26 jogos, com sete vitórias, nove empates, dez derrotas e 38,46% de aproveitamento. Apesar de ter perdido jogadores importantes por lesão nas Laranjeiras, Luxa esteve longe de conseguir dar sua cara ao time. Abusou das mudanças, de improvisações e do discurso inflamado no vestiário que a muitos incomodava. No adeus, se disse surpreso com a decisão da diretoria mesmo tendo conhecimento do processo de fritura que passou nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro.

Segundo o treinador, a surpresa se deu por uma declaração recente do diretor executivo de futebol, Rodrigo Caetano. Após a derrota para o Flamengo, Luxemburgo disse que não gostaria de ser o treinador apenas da partida contra o Corinthians e sim dos seis jogos que restavam ao Fluminense. Caso contrário, preferia sair. Caetano teria dito que a demissão não passava pela cabeça da diretoria. A verdade, no entanto, é que Luxa já estava sendo fritado desde 28 de outubro, dia seguinte à derrota por 3 a 2 para o Vitória no Maracanã.

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FRITURA E DESABAFO

Naquela segunda-feira, o Tricolor completou um mês sem vencer no Brasileirão. E o presidente Peter Siemsen estava decidido a mudar o comando da equipe. Passou o dia reunido com Rodrigo Caetano na busca por opções. O mandatário nunca foi um entusiasta da contratação de Luxa - segundo o treinador, por ele ser torcedor assumido do Flamengo. E era ainda um dos incomodados com o jeito de Vanderlei nos bastidores, principalmente nas preleções e após os jogos. A forma de conduzir as conversas no início até inflamava os jogadores. Mas com o passar do tempo não fazia o mesmo efeito e até incomodava alguns, principalmente pelas palavras utilizadas e pela maneira ofensiva. O mesmo já tinha acontecido na Gávea.

Na terça, Peter chegou ao clube decidido a demitir o treinador antes mesmo do treino. Mas foi demovido da ideia pelo presididente da patrocinadora, Celso Barros, e aceitou manter Luxa no cargo. O processo de fritura, no entanto, já incomodava Luxemburgo, que precisava responder se ainda era o treinador sem ser informado de nada pela diretoria. A pessoas mais próximas, ele deixou claro que estavam tentando derrubá-lo. E até mesmo desabafou ao dizer que pensava em largar o futebol. No começo da madrugada de quarta, o treinador recebeu um telefonema de Celso e foi avisado de que seguia no clube. A permanência só foi oficializada por Siemsen diante da imprensa na quinta-feira.

A partir daqueles dias, Luxemburgo já sabia que sua queda era questão de tempo - ou derrotas. Mesmo assim, ele adotou uma postura estrategista e resolveu não ir para o combate direto. Em sua primeira entrevista coletiva após a semana conturbada, evitou reclamar daqueles que chegaram a cravar sua demissão e mostrou um discurso sereno. Disse que seguiu trabalhando normalmente e que o clássico contra o Flamengo não era o 'jogo de sua vida'.
Um dia antes da entrevista, o treinador repetiu uma prática que já tinha realizado recentemente no Rubro-Negro e ofereceu um churrasco em sua cobertura na Barra para todo o grupo. Foi uma tentativa de melhorar o ambiente e unir mais a equipe na luta contra o rebaixamento. Muitos jogadores e membros da comissão técnica compareceram. Se por um lado o capitão Fred, que se recupera de lesão, não apareceu, a alta cúpula de futebol tricolor esteve representada por Peter, Caetano e até mesmo Celso Barros.

IMPROVISAÇÕES E COMEMORAÇÃO

Mas já era tarde para melhorar o ambiente com parte do elenco. Nem mesmo a semana de treinos em Atibaia - tática comum em outros trabalhos recentes do treinador - foi suficiente. Veio mais uma atuação apagada da equipe, a derrota para o Corinthians em Araraquara e a entrevista coletiva pós-jogo com as mesmas declarações repetidas das últimas semanas. Mas dessa vez, a vontade do presidente Peter Siemsen prevaleceu (a nota oficial publicada no site do clube fez questão de deixar isso claro em sua primeira linha) e o treinador foi avisado da demissão na tarde de segunda.

À noite, alguns jogadores chegaram a se falar pelo telefone para comemorar a mudança. Enquanto os mais jovens admiravam Luxemburgo por sua carreira vitoriosa, muitos outros estavam insatisfeitos com o trabalho do treinador. O consideravam arrogante e seco, muito diferente do antecessor Abel Braga. Costumavam dizer ainda que faltava incentivo e elogios aos elenco nas entrevistas. Nas Laranjeiras, aliás, há quem aposte em uma resposta positiva da equipe já contra o Náutico.


As constantes mudanças na equipe também pesaram contra o Vanderlei. Por causa de diversas lesões em jogadores como Deco (que chegou até a se aposentar), Fred, Carlinhos, Ronan, Valencia, Bruno, Jean, Wagner e Marcelinho, ele só conseguiu repetir a escalação por no máximo dois jogos. Ainda assim, abusou de mudanças constantes entre os titulares e improvisações. Sob seu comando, o Fluminense despencou dez posições nos últimos nove jogos - mais de uma por rodada. Luxa parecia sem saber mais o que fazer nos últimos jogos e faltava poder de reação ao time. Só na lateral-esquerda, foram pelo menos cinco experiências após as lesões dos dois especialistas da posição. Igor Julião, Rafinha, Anderson, Bruno e Felipe chegaram a atuar no setor. Rafinha, aliás, representa bem a falta de padrão da equipe: o volante jogou em mais de quatro posições sob o comando do ex-técnico.
Luxemburgo deixou o Fluminense no dia do aniversário de um ano da conquista do tetracampeonato brasileiro, mas o clube não tem muito o que comemorar. Depois de assumir o time na zona do rebaixamento, o técnico entrega a equipe a seu sucessor na mesma situação. Resta saber se Dorival Junior terá tempo suficiente de evitar a queda do Tricolor para a Série B.


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