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Barricada foi montada pouco antes da invasão, diz Nayara

Barricada foi montada pouco antes da invasão, diz Nayara

Lindemberg usou mesa para bloquear porta minutos antes da ação policial.
Nayara diz que ouviu tiros depois de a porta ter sido arrombada.

Nayara da Silva, de 15 anos, ferida com um tiro no rosto após o desfecho do seqüestro de mais de 100 horas, que resultou na morte da amiga Eloá Cristina Pimentel, também de 15 anos, com um tiro na cabeça, disse à polícia que Lindemberg Alves, 22, montou barricada minutos antes da ação do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate). O Jornal da Globo obteve o depoimento com exclusividade.

Depois de deixar o hospital, Nayara está com a mãe no apartamento de um tio. Antes disso, a adolescente contou à polícia o que aconteceu no apartamento de Eloá, na sexta-feira (17).

No depoimento que durou três horas, Nayara detalha um momento do seqüestro que rendeu críticas à atuação da polícia: a volta ao apartamento.

Segundo Nayara, os policiais disseram que foi Lindemberg quem exigiu a presença dela e de Douglas, o irmão mais novo de Eloá. Àquela altura do seqüestro, Eloá era a única refém.

Nayara deveria chegar ao segundo andar, mas sem se aproximar da porta do apartamento, e foi orientada a subir falando por telefone com Lindemberg. Ao se aproximar do apartamento, a porta se abriu. Lindemberg, então, determinou que ela segurasse a mão de Eloá e entrasse, sob a promessa de que deixaria a arma num dos quartos e que todos sairiam dali.

Nayara afirma que assim que entrou, a porta foi trancada. Dez minutos depois, os negociadores começaram a cobrar a rendição dele. Lindemberg disse que estava conversando com as meninas, e que logo se entregaria. Porém, Nayara percebeu que ele não tinha intenção de cumprir o acordo e se deu conta de que havia virado refém outra vez.

O outro trecho fundamental do depoimento da adolescente diz respeito aos momentos que antecederam a invasão do apartamento pela Polícia Milita (PM).

Nayara descreve com riqueza de detalhes o que ela, Lindemberg e Eloá faziam naquele momento. Ela recorda a posição de cada um no imóvel.

A adolescente relata que, no fim da tarde, alguém ligou para Lindemberg, quando houve uma longa conversa. Ao fim dessa conversa, Nayara se deitou, Eloá continuou sentada no sofá, enquanto Lindemberg arrastava uma mesa de jantar até a porta do apartamento. Ou seja: a barricada que impediu a invasão imediata do apartamento só foi montada minutos antes da ação do Gate.

Eloá se deitou lateralmente à direita no sofá, enquanto Nayara se deitou lateralmente à esquerda, ambas com visão para a TV.

Nayara ouviu um barulho que não parecia uma explosão, mas se assemelhava com o ruído de um chute na porta. Até então, Lindemberg não havia feito qualquer disparo com armas de fogo em seu poder, segundo o depoimento da adolescente.

Pouco depois, a porta começou a ser arrombada e empurrada. Eloá deu um grito. Nayara pegou um edredom e cobriu o rosto. Ela diz que não viu mais nada, recordando-se de ter ouvido dois estampidos e sentido um impacto no rosto.

Nesta quinta-feira (23), pela primeira vez o comandante da Tropa de Choque reconheceu a possibilidade de que o estampido que os policiais disseram ter ouvido antes da invasão não tenha sido provocado por um tiro.

“Eu tenho que acreditar na minha equipe. Pode ter havido um outro barulho e a equipe ter interpretado como tiro? Pode. Não vamos dizer que não. Mas, por enquanto, a equipe, as testemunhas afirmam que o barulho partiu do interior do apartamento. Agora se esse disparo partiu de dentro ou de fora do apartamento, ou se foi um rojão, o laudo técnico vai dar. Da mesma forma que a Nayara pode ter se confundido, os policiais também”, diz o coronel Eduardo Félix, comandante da operação.


Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0 ... 05,00.html