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As muitas “Índias” e a “Índia” da novela.

Se eu atropelar uma vaca no meio da rua, em Mumbay, serei linchado publicamente? Quando chegar em casa sempre verei minha família, vestida com cores extravagantes, dançando no meio da sala? Realmente precisaria passar por longos rituais caso um “intocável” encostasse em mim? Tenho que tomar banho nas águas do sagrado Ganges (inclusive com restos de cabelo, pelos, cinzas de gente morta, excrementos e afins)?

Por essas e outras dúvidas, que afligem as incautas alminhas dos “telespectadores”, elaborei um rápido guia para as culturas indianas, um “Lonely Planet Televisivo” capaz de servir de primeiríssima aproximação com uma região realmente fantástica (as vezes até demais, inclusive para os autores de novelas). Mais do que um “verdades e mentiras” é um “princípios e recomendações” a respeito de algo que efetivamente é um universo em sí.

Anos atrás, quando decidi estudar um pouco sobre história e cultura indiana, meu primeiro choque - ou desestímulo - começou no primeiro parágrafo da primeira página do primeiro livro que peguei sobre o assunto (de um pesquisador alemão, os quais, aliás, devem ter algum “karma” relacionado a Índia dada a quantidade deles que estuda a região). O texto dizia literalmente que é impossível tratar a ”Índia” como algo único, homogêneo, logo não há a “Índia” senão como unidade política, como estado nacional. Culturalmente falando há milhares de Índias.

Dadas as provas cabais que o autor dava em seu livro dessa diversidade eu desisti de me tornar um especialista no assunto, me contentando em estudar coisas mais simples, há que diga que na Índia há tantos físicos e matemáticos porque era a coisa mais fácil a se estudar depois de desistir da história regional.

O fato é que a região na qual está a Índia atual (que pouco tem a ver com os antigos estados, impérios que existiram na região) é uma das mais antigas áreas de desenvolvimento da humanidade. Os livros sagrados para os hindus - o Mahabaratha, do qual faz parte o Baghavad Ghita, por exemplo - foram escritos muito antes da Bíblia, além de serem gigantescas narrativas de sagas que envolvem homens e deuses ao longo de gerações no mesmo enredo.

Mas, mesmo assim, essa cultura hindu era apenas uma das várias que existiam no sub-continente indiano. Sem haver uma religião centralizada - como no catolicismo - cada área desenvolveu características particulares, tal como entre os antigos gregos, ou entre os povos celticos. Deuses grandes e poderosos, como Brahma, Shiva e Vishnu, conviviam nos cultos locais com deuses absolutamente específicos (de um único rio, de uma única floresta).

Ao longo de milhares de anos a região passou por inúmeras organizações sociais distintas, mas raramente com grandes unidades, os famosos Marajás e Rajás eram lideranças políticas locais em determinada época, tal como os barões na Idade Média européia. Comandavam desde estados poderosos e maiores, até micro-reinos.

Milhares de grupos distintos se encontravam sob o domínio desses potentados locais, desde pessoas de pele escura até as bem brancas, passando por vários tons de acobreado, compondo etnias, tribos diversas.

Em algumas áreas, como na fronteira do atual Paquistão (a Caxemira) a influência do islamismo também tornou-se muito forte a partir do século VII a.D., quando levas de muçulmanos invadiram a Ásia Central e de lá se dispersaram até o extremo oriente. No norte da Índia, por outro lado, o florescente budismo (que nasceu do hinduísmo, alguns costumam comparar a revolução budista diante do hinduismo com a que o cristianismo teve em relação ao judaíismo) seguiu em direção ao norte e ao leste, chegando ao Tibet, ao Nepal, a China e ao Japão, para depois, praticamente, desaparecer da Índia.

Os preceitos a respeito das vacas sagradas, dos banhos rituais no Ganges, das superstições, dizem respeito apenas a uma parcela do povo do atual Índia (alguns mais, outros menos comuns). Da mesma forma o interior da Índia é composto de áreas ainda profundamente rurais, muito diferentes das grandes cidades como Calcutá, Nova Delhi e Mumbay, até mesmo no perfil de sua população.

Essa diversidade, e o domínio de grupos sobre outros, bem como a fundamentação no ancestral hinduismo (com sua crença na evolução do ser, vivendo no “samsara”, até chegar ao “nirvana”, que é o estado de integração absoluto com o cosmo, de interrupção do dharma, o ciclo de reencarnações ligadas a superação dos desejos e do sofrimento, geradas e carregadas pelo “karma”) acabou por produzir o sistema de “castas”. Diferentemente dos “grupos sociais”, como entre nós, a “casta” não pode ser superada ao longo da vida. Em sociedades como a nossa um cidadão pode nascer numa família pobre, mas, ao final da vida, ter se tornado rico ou até presidente da república. No hinduismo a casta é resultado do karma que o indivíduo carrega, e sua superação somente é possível com a morte sem novos acumulos de “dívidas” e a reencarnação numa existência melhor.

Quando o Império inglês sofreu a oposição final, a resistência contra o domínio colonial, depois da Segunda Guerra Mundial, liderada por Mohandas Gandhi, o Mahatma, o sistema de castas foi um dos grandes desafios para o estabelecimento de um país com povos hindus e não hindus. A grande massa muçulmana - que tem preceitos absolutamente diversos dos hindus - jamais aceitou a determinação de posições sociais a partir de uma determinação de nascimento. Além do mais questões relacionadas as leis também pesavam no relacionamento entre os grupos. O resultado foi que, após a independência da Índia, parte dos muçulmanos rompeu com o governo e criou em momentos distintos dois outros países de maioria islâmica: primeiro o Paquistão e depois Bangladesh.

Durante esse processo, de trocas de populações entre os países, milhares e milhares de pessoas morreram tentando atravessar as fronteiras. Vem desde aí as divergências entre a Índia e o Paquistão que até hoje aterorizam aquela região, com a ameaça de uma guerra nuclear regional.

Contudo, mesmo na Índia permanecem grupos que pertencem a credos distintos. No extremo norte do país, por exemplo, estabeleceu-se quase que um micro-Tibet depois que o Dalai Lama teve de fugir de Lhasa. Também após a Segunda Guerra Mundial a China decidiu anexar o Tibet, reinvindicando direitos milenares sobre aquela região. Durante anos o governo tibetano tentou resistir, mas no final da década de 1950, diante de uma iminente tentativa de eliminação do governo do Tibet o Dalai Lama e seu governo fugiram para o norte da Índia, estabelecendo-se na cidade de Daramsala. Um dos efeitos disso, hoje, é um renascimento do budismo no norte da Índia, depois de ter quase desaparecido da região.

Diversos filmes já retrataram a Índia e - é claro - cada um deles enfatizando uma região, um estrato social, uma época. Em “Passagem para a Índia” de David Lean, por exemplo, o foco era a relação entre uma população ilustrada local - na figura de um médico indiano - com a burocracia inglesa colonial, que via a Índia e seus povos como “bárbaros” ou quase, com o seres de outro planeta.

Em “Caminho das Índias” - apesar de haver personagens que encarnariam grupos diversos da Índia (uns mais credulos, outros conciliando a religião com a ciência)- a dimensão caricata da sociedade indiana é enfatizada. Acreditar que uma vaca é sagrada para nós pode ser tão engraçado, ou absurdo, quanto imaginar que um santo foi mergulhado em óleo fervente e saiu vivo, ou que pastilhas de farinha podem ser transformadas durante um rito em ”carne de um Deus” (nada contra nenhuma das crenças, mas o que é absurdo ou engraçado muda se invertemos o ponto de vista da questão).

Mas a novela, infelizmente, não propõe essa dimensão da questão e os indianos são constantemente colocados em situações no mínimo “curiosas”.

Vale lembrar que a primeira base de abastecimento e comércio de Portugal na Ásia foi nas Índias, em Goa, na virada do século XV para o XVI. Como a ocupação do Brasil se deu quase simultaneamente houve um transplante não desprezível de elementos, traços culturais, práticas de lá para cá. Nosso litoral, que tantos gostam com coqueirais, só foi possível graças a vindo do _____ para cá, já que a flora da nossa costa tinha muita coisa, menos coqueiros.

Os temperos que passaram a visitar os pratos portugueses, e os doces também, vinham através da Índia (como a canela, o cravo, a pimenta do reino, a noz moscada, açafrão, cúrcuma, outras pimentas).

Esse visual que ocupa as telinhas de TV todas as noites é inspirada numa mania relativamente nova na Índia (pensando é claro numa civilização de mais de 5.000 anos) que são so filmes de Bollywood, os quais, nem precisamos ir muito longe, são uma mescla de elementos indianos do sul cosmopolita, principalmente, com traços da cultura estadosunidense.

O fato é que o que vemos não são as cultutas indianas, mas uma representação dela. A coisa é tão complexa que elementos que se imagina serem absolutamente indianos não são. Um caso clássico é o do famoso “curry”, o mais “indiano” dos temperos. Mas o “curry” não é indiano, e sim inglês. Depois de séculos de colonização (inciada e mantida naquilo que passou a ser conhecido como “Grande Jogo”, a disputa entre a Russia e Inglaterra pelo domínio da Ásia) a grande quantidade de funcionários da coroa britanica que voltavam para o seu país, saudosos da Índia criaram um tempero que mesclava elementos da colônia e tinham um “sabor de Índia”. O curry indiano nada tem a ver com aquele que se popularizou mundo a fora.

Para quem gosta de literatura, além do famoso Salman Rushdie (o qual encarnou bem esse enclave religioso da Índia moderna), de Tagore, de Aravind Adinga, recomendo a leitura de Rudyard Kipling, jornalista e escritor inglês que nasceu e viveu na Índia no começo do século XX. De Kipling são as obras primas “O livro da Selva” (que ficou mais conhecido pelo seu personagem principal, Mowgli), “Kim” (que descreve fantásticamente o ambiente do “Grande Jogo”), “O homem que queria ser rei” (que virou filme com Sean Connery no papel principal). Mas é necessário sempre ter cuidado: é a leitura de inglês sobre a Índia, e não a Índia como ela é, ou como os indianos a vêem.

No Rajastão dificilmente você veria pessoas em suas casas vestidas como nas novelas ou mesmo nos filmes de Bollywood, ou se comportando exatamente daquele jeito. É claro, trata-se de ficção, mas a “vida imita a arte” e sem dúvida muitos imaginarão daqui para diante que a Índia seja toda exatamente daquele jeito, tal como muitos, mundo a fora, ainda pensam que a capital do Brasil é Buenos Aires e falamos castelhano.

Comentário a alguns comentários:

Bom, em primeiro lugar posso indicar uma bibliografia extensa para quem quiser saber mais a respeito da Índia - aliás, muitos dos que reclamaram usam “Índia” no singular, justamente uma das coisas que disse ser equivocado. Para começar recomendo aos apressadinhos lerem “Cultura e Imperialismo ” de Edward Said, para terem um minimo de embasamento teórico a respeito da questão.

Mas mesmo assim o que a maioria quer saber é se eles se vestem assim ou assado, se fazem isso ou aquilo. Para isso existem almanaques e outros textos. O comentário, como em geral faço, tem como objetivo esclarecer alguns procedimentos da industria do divertimento e até mesmo da mídia em geral em homogeneizar, simplificar e caricaturizar as culturas, os países, os grupos sociais. Por isso disse que, na verdade, era um texto de “princípios e orientações”, mas, muitos só lêem o que querem ler. Mesmo assim foi uma brincadeira. Como historiador da Universidade de São Paulo - isso é para o cidadão que me mandou voltar para a escola (aliás, no que você é formado???) - devo dizer que qualquer item minusculo dessa história poderia render uma vida de estudo. Uma colega de universidade, por exemplo, passou anos de estudo, em seu doutorado, pesquisando a influência que a arte helenistica, trazida com o exército de Alexandre o Grande, deixou na arte budista, sobretudo nas representações de Buda (aliás, “um” dos Budas, ou uma das “manifestações” de Buda).

Não é uma crítica a Globo nem a quem quer que seja, apesar de não gostar de como Gloria Perez encaminha as narrativas dela e de como ela representa as culturas diferentes. Depois ficamos ofendidos quando num filme dos EUA as praias do Rio de Janeiro aparecem com macacos andando na areia e as pessoas falando espanhol.

Creio que boa parte das pessoas que ficaram irritadas devem ser telespectadores assiduos e gostariam que eu simplesmente ficasse dizendo porque a vaca é sagrada, porque os hindus queimam seus mortos ou porque se lavam no Ganges. Até poderia fazer isso, mas não é a proposta de um blog, e, sobretudo, do meu blog. Mas, volto a dizer, para os que quiserem posso indicar uma bibliografia. Infelizmente a parte substancial dela terão de ler em bibliotecas das Universidades públicas de São Paulo, pois são textos que não circulam, ou edições estrangeiras (em francês, inglês, espanhol, italiano ou alemão).

Uma coisa que me choca efetivamente é o fato de porque alguém não gostou de um texto - ou porque não atendeu suas expectativas - simplesmente dterminar que quem escreveu não sabe do que está falando. Oras, isso é uma arrogância típica do brasileiro, típica de quem despreza o conhecimento, o estudo, e que valoriza toda sorte de palpiteiros. Sinceramente isso raramente ocorre com povos que valorizam mais o estudo. Infelizmente, as vezes, temos que chamar as pessoas para um “tête a tête”, já que está acusando, tem que provar. Inclusive sempre coloquei para estes que escrevem comentários mais “ácidos” (na realidade mal educados, a acidez é um recurso retórico que exige mais refinamento e conteudo) a possibilidade de enviarem um texto com a mesma dimensão, adequado para a linguagem de internet. Publicaria o texto e o submeteria ao crivo de leitores variados do blog bem como de “especialistas” no tema.

Em geral ninguém topa.


Fonte: http://colunistas.ig.com.br/indianasilv ... da-novela/