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Armas nucleares podem ser usadas por terroristas

Os dois únicos testes nucleares deste século foram realizados pela Coreia do Norte, uma ditadura tão enigmática quanto insana. O segundo deles, na segunda-feira passada, numa região montanhosa e inóspita no nordeste do país, reverberou como a confirmação de que a proliferação nuclear atingiu o patamar a partir do qual o perigo é imediato e urgente. Dois fatos principais justificam o alarme. A posse de um artefato atômico por um país isolado e pobre demonstra que o desenvolvimento desse tipo de armamento está ao alcance de qualquer nação disposta investir os recursos necessários para fazê-lo. E se países miseráveis e com governos frágeis se armam com átomos, não está distante o momento em que o gatilho atômico cairá na mão do terrorismo.

Um estudo da Universidade de Stanford estimou a probabilidade de um ataque terrorista com o uso de bombas sujas (ou seja, com material radiativo) em 20%. Com bombas nucleares, cai para 1%. Qualquer estimativa acima de zero é um pesadelo quando se fala da combinação de terroristas e material radioativo.
Mesmo sem uma proibição formal do uso de armas nucleares, as sociedades desenvolveram uma aversão moral a esse armamento. "As considerações éticas ajudaram a evitaram o uso de armas nucleares desde 1945, pelo menos no que diz respeito a países detentores de um arsenal nuclear contra outros desprovidos dos mesmos artefatos", disse o cientista político James Lee Ray, da Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, a VEJA.

Com o fim da guerra fria, os países civilizados que assinaram o Tratado de Não Proliferação Nuclear, em 1968 (Estados Unidos, Rússia China, Inglaterra e França), reduziram seus arsenais atômicos. Desde 1986, o número de ogivas no planeta caiu de 70 000 para 25 000. Outros países desistiram da bomba. Esse cenário animador, infelizmente, está agora virado de cabeça para baixo.

O fim da Guerra Fria também fomentou o comércio ilegal e a proliferação de programas nucleares em países periféricos, politicamente conturbados, como o Paquistão, quando não governados por fanáticos, como o Irã. Com a bomba na mão desse tipo de país, o capítulo seguinte se torna totalmente imprevisível. "Eu não diria que o progresso moral eliminou as possibilidades de que países instáveis, como a Coreia de Kim Jong-il, desencadeiem uma guerra nuclear. No caso desses estados, na verdade, nem sei se posso falar em progresso moral", diz Lee Ray. O ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il, é uma figurinha ridícula, que usa sapato com salto plataforma para compensar a baixa estatura e um topete ouriçado no estilo de Elvis Presley. Mas não deve ser visto como irracional ou suicida.

As negociações em torno do programa nuclear norte-coreano se repetem há anos. Em bom português, pode-se dizer que a Coreia do Norte especializou-se em chantagem diplomática. Em alguns momentos, senta-se à mesa com os demais países e acena com a paralisação de seu programa nuclear. Em outros, abandona rispidamente os encontros - o último foi no mês passado -, lança mísseis e faz novas ameaças. Com essa estratégia, Kim Jong-il conseguiu ampliar o recebimento de ajuda humanitária internacional, da qual depende um terço da população, combustível e algum dinheiro. "O ditador norte-coreano quer mostrar firmeza e enviar mensagens que possam render-lhe novas concessões", disse a VEJA Stephen Noerper, analista do Nautilus Institute, em Washington.

A possibilidade de a Coreia do Norte desfechar um ataque nuclear contra seja lá quem for é pequena. Em parte, porque sabe que, mesmo que arrase Seul, que está a apenas 40 quilômetros de distância, não escaparia de ser igualmente devastada. Há também que considerar que o desenvolvimento de seus artefatos bélicos está em estágio primitivo. Os dois dispositivos testados possuem mais de três metros de comprimento e pesam quatro toneladas. Com tais medidas, seria impossível colocá-los na ponta de um míssil.

A construção de arsenais atômicos por países como Coreia do Norte e Irã pode dar início a corridas armamentistas no Oriente Médio e na Ásia. Apesar das sanções econômicas impostas pela ONU, o Irã segue desafiando o mundo com seu programa nuclear e está a dois anos de ter a bomba. O arsenal nuclear do Paquistão está, por enquanto, sob guarda da instituição mais sólida do país, o Exército. Mas o país está em guerra aberta com fanáticos do Talibã, que controla regiões fronteiriças com o Afeganistão. "Não podemos nem contemplar a possibilidade de o Talibã ter acesso ao arsenal nuclear do país", disse recentemente a secretária de Estado americana, Hillary Clinton.

A possibilidade de terroristas produzirem uma bomba a partir do zero é ínfima. O processo é caro, exige tecnologia e pessoal altamente especializado. Mas é bastante mais simples fabricar uma bomba suja, feita com explosivos comuns e material radioativo e capaz de provocar grandes estragos. Ninguém precisa pensar muito para ver a conexão entre o perigo de um terrorismo atômico e os programas nucleares em países instáveis e repletos de fanáticos religiosos ou políticos, como o Irã, o Paquistão e a Coreia do Norte. Essas condições fazem de cada um deles um potencial provedor de material atômico para grupos terroristas. O terrorista, como se sabe, só se ocupa de promover a maior atrocidade possível, sem nenhuma estratégia política que atenue sua perversidade.





Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/intern ... 4050.shtml