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A verdade sobre a invasão da Síria

Cães da guerra VS. a caravana emergente

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Por: Pepe Escobar ( Traduzido por Coletivo de tradutores Vila Vudu )

Os cães da guerra ladram, e a caravana dos países emergentes segue adiante. Eis um bom resumo da reunião do Grupo dos 20 em São Petersburgo. Não faltaria a nação indispensável (para bombardear) – via o presidente dos EUA, Barack “Linha Vermelha” Obama –, para atrapalhar uma reunião cuja agenda original eram os imensos problemas que afligem a economia mundial.



"Economia é para maricas". Tragam aí, os meus Tomahawks. A doutrina Obama – “Sim espionamos”, “Sim revistamos”, “Sim dronamos” – atingiu novo fundo do poço, com sua solução “Sim bombardeamos” para o problema do ataque com armas químicas em Ghouta, Síria, presenteando a opinião pública nos preparativos para o G-20, com o show de ilusionismo de algum “debate” no Senado dos EUA sobre os méritos de um novo surto de bombardeio humamitário.


O que se viu foi, isso sim, um horrendo espetáculo, em que Republicanos matadores seriais alucinados, do molde de John McCain e Lindsey Graham, espremeram o desesperado governo Obama como limõezinhos. O gambito orwelliano daqueles dois – “reverter o momentum do campo de batalha” – levado avante pelo senil McCain, foi devidamente aprovado pela Comissão de Relações Exteriores do Senado. Significa bombardear Damasco até o osso durante uma “janela de oportunidades”, com possível prorrogação. Obama Linha Vermelha está a bordo, afirmando, antes de embarcar para a Suécia e para o G-20, que sua “palmadinha na mão” prévia “harmoniza-se” com mudança de regime.


Nem algum espectro de Maquiavel encontraria adjetivo que descreva o mundo inteiro à espera, sem acreditar, para saber o que a quase universalmente desprezada Câmara dos Representantes dos EUA (aprovada por 15% dos eleitores, segundo pesquisa de RealClearPolitics) decide, ao estilo do Império Romano, e baixe o polegar autorizando o bombardeamento de uma das mais antigas cidades que a humanidade construiu (ora... mas há precedente ilustre! Eles também aplaudiram a operação Choque e Pavor contra Bagdá, que derrubou os mongóis que se iam tornando medievais no século 13).


E tudo isso contra o desejo do “povo americano” do qual, segundo pesquisa Reuters/Ipsos, só impressionantes 9% apoiam essa loucurada.

Sim Nós Bombardeamos. Mas para quê? O diálogo transcrito abaixo poderia ter saído diretamente de Monty Python. Desgraçadamente, é real.


Comandante do Estado Maior das Forças Conjuntas dos EUA general Martin Dempsey: A resposta sobre se eu apoio ajuda adicional à oposição moderada é sim.”

Senador Bob Corker (R, Tennessee): "E essa autorização apoiará aquelas atividades além de responder às armas de destruição em massa

Dempsey: "Não sei como a resolução evoluirá, mas eu apoio...”

Corker: "O que o senhor busca. O que é que o senhor está buscando?"

Dempsey: "Não posso responder essa pergunta, o que nós estamos buscando...”

O Pentágono não tem ideia – melhor dizendo: faz que não tem. Mas Bandar Bush, AIPAC/Israel e vastos setores do complexo industrial-militar sabem exatamente o que estão buscando. E o secretário de Estado John Kerry sabe, não só o que estão buscando, mas também quem paga a conta. E disse, precisamente: “os EUA estão preparados para fazer a coisa completa assim como fizemos antes em outros locais, e eles [países árabes] arcarão com esse custo. Mostra o quão dedicados são à coisa.”[1]


Bombas grátis. Três meses. Com acordo prévio para prosseguir. Operação Tomahawk com queijo, bacon, cebolas, chili, mayo, guacamole, serviço completo. Tudo cortesia do príncipe Bandar Bin Sultan da Arábia Saudita – codinome Bandar Bush – mais seus sabujos, Emirados e Qatar. O que haveria de errado? O inestimável Vijay Prashad, autor de The Poorer Nations, usou a calculadora:



Prova A: Os sauditas puseram “sobre a mesa” a oferta de pagarem por todo o ataque dos EUA à Síria.

Prova B: em caso de ataque à Síria, o preço do petróleo subirá de $109 para $125 o barril (cenário básico), com possibilidade de chegar a $150 o barril. A Arábia Saudita produzirá 9,8 milhões de barris de petróleo por dia. Se se verificar o cenário básico, os sauditas terão um super lucro extra de $156,8 milhões por dia. Caso se verifique o outro cenário, nesse caso os sauditas embolsarão $401,8 milhões por dia. Não é mau negócio de arbitragem, vindo do Sr. Bandar e sua gangue de sauditas “democratas”.



Addendum: cada Tomahawk[2] custa "apenas" US$1,5 milhão. Com a perspectiva de despejo livre de dinheiro de Bandar Bush, haverá fluxo compatível de [cerveja] Krug no quartel-general da empresa Raytheon.

Confrontados com o casamento suntuoso do complexo industrial-militar com a Casa de Saud já produzindo rebentos letais devidamente empregados como Força Aérea da al-Qaeda... um pequeno detalhe, como jihadis chechenos linha duríssima formando sua própria milícia, os Mujahedin do Cáucaso e do Levante, é, bem... É irrelevante. Também é irrelevante o fato de aqueles jihadis serem comandados por ninguém menos que o próprio Bandar Bush, que se pavoneou, para o presidente Putin, de que pode ligá-los e desligá-los da tomada, como bem entenda.
(NT: Ameaçou Putin que, se continuar a apoiar Assad, usará seus terroristas situados na Rússia para praticarem atentados durntes os jogos olímpicos de inverno a serem realizados na Rússia)


Quer dizer: se aqueles chechenos são sabujos a serviço de Bandar, são também Amigos de Obama/Kerry/Rice/Power. Como os jihadis que estão tentando ocupar a cidade “dos Cruzados”, Maloula – onde ainda há gente que fala aramaico, a língua de Jesus –, e onde alegremente conseguirão degolar dúzia e meia de cristãos infiéis.
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O que diz Zbig?

Obama Linha Vermelha, seja como for, já avisou que, sim, bombardeará – e decida o Congresso o que decidir. Obama, claro, é pau mandado – não consegue nem encontrar Maloula num mapa (para nem lembrar dos seus “conselheiros de segurança” do tipo Ben Rhodes). A Síria é um pêssego a ser devorado. Independente demais. Aliada de Irã e Rússia. Aquelas fontes de rio no Golan, que Israel cobiça. A chance de provocar ainda mais a Rússia no Cáucaso. A chance, no longo prazo, de desestabilizar a China em Xinjiang. A chance de isolar o Hezbollah, de permitir outra invasão israelense no sul do Líbano. E abrir a estrada (letal) para Teerã.


Mas as agendas continuam divergentes. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan na Turquia abençoaria uma ‘mudança de regime’, mas está petrificado de medo de que os cursos sírios tornem-se completamente independentes e metam mais ideias tóxicas na cabeça dos curdos turcos. A Casa de Saud só quer total ‘mudança de regime’, e é capaz de, num só golpe, tentar varrer o Irã, o Iraque e o Hezbollah. E se aqueles Amigos de Kerry Allahu Akbar & Cia. enlouquecerem de vez? Eles não estão em solo da Arábia Saudita nem ameaçam a petromonarquia. Assim sendo... é deixar que combatam os “apóstatas” xiitas nas mais variadas latitudes.


Vejamos o que pensa sobre tudo isso o homem quem, em teroia, instilou essas perolazinhas de realidade das relações internacionais no cérebro de Obama Linha Vermelha. Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski está a favor de “alguma ação militar simbólica”.[3] Taí! Modalidade custo efetiva para fazer isso poderia ser descer Kerry, de paraquedas, diretamente em Maloula.


O Dr. Zbig quer também “envolver as potências orientais”, dado que “têm de estar muito preocupadas com para onde essa coisa está indo”. Correto: foi o que disse o presidente Xi Jinping da China, a Putin, que está preocupado com o petróleo a $150 o barril. Os russos, segundo o Dr. Zbig, estão usando “linguagem agressiva e insultante”. Ridículo – quando Putin chamou Kerry de mentiroso, disse pouco. Verdade é que o Dr. Zbig está petrificado de medo de que “os russos usem esse conflito, se explodir, para minar toda a nossa posição no Oriente Médio”. Em tempo: vossa “posição” já está super minada em todo o planeta, não só no Oriente Médio.


E quando o Dr. Zbig diz que os russos “têm medo de estabilidade no Cáucaso” e que “Putin vê que os Jogos de Inverno estão ameaçados” e “há alavancagem aqui, que nós podemos usar inteligentemente”, fala como sub-do-sub, de Bandar Bush, ameaçando Putin de soltar os chechenos “de Bashar” em Sochi em 2014.


Muito mais esclarecedor, e sem dupliconversa, é o que deseja a “oposição” manipulada. Irã, Irã, só Irã, e o “terrorista aliado” Hezbollah (está tudo aqui, na página 6.[4])

O show Xi-Putin


Apesar de imensa nessa histeria geral, a caravana dos BRICS conseguiu fazer discussão séria, no G-20. Organizaram mini-reunião para coordenar sua posição comum – a qual, no que tenha a ver com a Síria, é totalmente antiguerra (o que ninguém lerá nos jornais da imprensa-empresa ocidental). Declararam, en bloc, que a guerra de Obama terá “efeito extremamente negativo sobre a economia global”.


Assim sendo, como grupo, discutiram como fazer aumentar o comércio entre eles mesmos, usando suas próprias moedas; como desenvolver seus mercados (parte da agenda russa original para esse G-20); e como melhorar as relações comerciais. Estratégia comum: várias rotas de fuga para bem longe da – e contra – a hegemonia do dólar norte-americano.


Avançaram nas negociações relacionadas à estrutura do capital, acionistas e governança do banco de desenvolvimento dos BRICS; capital inicial de $50 bilhões e um fundo de emergência de $100 bilhões, uma espécie de Fundo Monetário Internacional dos países emergentes. O banco deve dar a partida de fato, na próxima reunião de cúpula dos BRICS, no Brasil, em 2014.


No que tenha a ver com Rússia e China, há a reunião anual da Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)], semana que vem. Antes disso, já antecipando os $200 bilhões de comércio bilateral em 2020, Xi e Putin discutiram uma vasta série de megaprojetos – não só para o Oleogasodutostão –, e a proverbial “mais coordenação estratégica internacional”. A versão em chinês dessa parceria estratégica é uma beleza: “Semear na primavera e colher no outono.”


É como dormir numa daquelas famosas camas do hotel Four Seasons. Nada de histerias. Nada de “linhas vermelhas”. Nada de Tomahawks. Nada de “está em jogo a nossa credibilidade”

Eis o que Obama disse em agosto de 2012:

Nós fomos muitos claros para o regime Assad, mas também para outros jogadores em campo, que uma linha vermelha para nós é quando começarmos a ver toda uma gama de armas químicas andando por lá ou sendo utilizadas. Isso mudaria meu cálculo. Isso mudaria a minha equação.[5]



Observe-se o “meu” [cálculo] e outra vez a “minha” [equação], invocando para ele mesmo, não para algum “o mundo”, a responsabilidade.


Assim se vê que, enquanto as caravanas de Xi e Putin fazem reviver o espírito da Rota da Seda, os cães da guerra só fazem latir; e a opinião pública bem informada por todo o planeta começa a considerar a possibilidade de que Obama, que já deixou de assumir a plena responsabilidade pelo que diz, e em 2013 tenta culpar “o mundo”,[6] bem pode ser também, covarde.

Notas

[1] Washington Post, vídeo, “Depoimento de John Kerry à Comissão de Relações Exteriores do Congresso: países árabes ofereceram-se para pagar pela invasão” (ing.)

Postado por: Hubble
Em: Anti nova ordem mundial