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A revolução na linguagem

As pessoas, segundo Umberto Eco, podem ser classificadas em apocalípticos ou integrados, de acordo com a sua aceitação de mudanças sociais. Apocalípticos seriam os que não aceitam as mudanças e os integrados seriam os que aceitam sem questioná-las.

A comunicação via internet suscita muitas discussões em torno de sua forma de uso, ensejando posições que podemos julgar apocalípticas, no que se refere ao uso de abreviaturas e siglas, nos chats e e-mails e outras novidades, como o uso de figuras e grafias inovadoras. Mas, apesar dos protestos que suscitam, são inerentes à língua os processos de economia lingüística que já resultaram em cine, pneu, foto, CD, quilo e você, entre outros.

Um dos maiores lingüistas da atualidade, o irlandês David Crystal, abordando a linguagem da internet, tem posição oposta, aceitando como natural e previsível a mudança. Absolutamente integrado, Crystal estuda esta linguagem, sem lançar nenhuma sombra de preocupação sobre a permanência das palavras e seu significado, explorando sobretudo a idéia de que a internet é uma forma nova de comunicação que fez uma revolução na linguagem. Argumenta ainda Crystal que a comunicação mediada pelo computador tem características diferentes da fala, mesmo nos e-mails, porque não tem o retorno instantâneo do face-a–face. São mensagens completas, unidirecionais, sem a ajuda da entonação, nem da expressão facial, sendo muito mais lenta na troca de informações do que a fala.

Porém, o que mais interessa é sua diferença em relação à escrita, pois, na simplificação que acarreta é que residem as preocupações. Entre estas, é vista como primeira diferença a estabilidade da escrita: o texto impresso é estático, enquanto uma página da web pode variar a cada busca. Quanto aos e-mails, ele lembra a mobilidade de sua forma, a facilidade de modificá-los e/ou encaminhá-los a outro, as possíveis ligações com outros textos (link), que conduzem ao hipertexto. Os possíveis erros de digitação também não levam a concluir, como na escrita convencional, que o emissor não sabe escrever. São produtos da pressa, logo deletados; são passageiros e voláteis. Os efeitos na língua desse novo meio são duplos: inicia uma mudança no caráter formal e possibilita maior utilização da escrita. São inúmeras abreviações usadas ( tb.,vc., q, bjus) e a falta de maíusculas e de acentos surpreende o falante de português.

A ortografia fora do padrão, condenada na escrita convencional, é usada sem sanções em ambientes de conversa. A aparente falta de respeito pelos padrões da escrita está preocupando muitos, julgando-se que as crianças não saberão escrever no futuro, pela quantidade de modificações usadas.

Contudo, abreviaturas sempre foram usadas na língua, sem terem interferido para dificultar a comunicação. O único cuidado a ter é que estas sejam usadas apenas na comunicação via computador e não sejam adotadas na escola. A língua tem determinados registros que devem ser respeitados. Não levamos para uma ocasião formal a linguagem das ruas: é um fato intuído por qualquer falante.

Um vocabulário que tem como fonte o inglês está entrando para as línguas do mundo através da internet. Nomeiam situações, operações e atividades restritas à linguagem do computador e alguns termos já entraram no domínio geral nas línguas contemporâneas.

A comunicação via computador não usa uma linguagem cifrada, mas diferente, de acordo com o meio recém criado. É mais que um agregado de características da fala e da escrita e faz coisas que nenhum desses outros meios faz. Deve ser vista como uma forma de comunicação que gerou sua própria linguagem, com regras exclusivas, e não como uma escrita anárquica numa visão apocalíptica. Este é um avanço tecnológico que não se pode medir nem projetar.


Fonte: http://pe360graus.globo.com/educacao/em ... UAGEM.aspx