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A Cidadania nossa de cada dia, ou a ausência dela…

Sou um ser “pedestre”. Não que eu tenha uma habilidade para andar diversa dos demais humanos, mas gosto de andar e faço isso todos os dias. Apesar das reclamações intermináveis de amigos e parentes tenho me recusado a usar carro até hoje, não porque não goste deles, mas porque creio assim ter mais tranquilidade. O fato é que andando a pé percebemos coisas que de carro raramente vemos.

Num dos caminhos que faço regularmente para minha casa passo por um trecho de uns dois quilômetros que mageiam um córrego canalizado. Nesse curto espaço de uns dez ou doze quarteirões não há um único dia no qual eu não fique entre a indignação e o desânimo.

Há dois cruzamentos com semáforos e faixas de pesdestres que nunca são respeitados. Nas ruas onde não há semáforo os motoristas fazem as conversões sem sinalizarem (pois pensam que por não ter outro veículo atrás não precisam sinalizar também ao pedestre). Certo dia vi um senhor jogando um saco de lixo no córrego e lhe disse; “Que bonito heim meu Senhor!!”

Ele não entendeu. Quando disse que estava jogando lixo no córrego, que iria entupí-lo, que ia ajudar a promover um alagamento, etc., ele respondeu que era “apenas” um saco de tripas (urgh!). Oras, que jogasse as tripas então em seu lixo…. Não, preferiu jogar no rio, pois não queria passar uma noite com o cheiro ruim. Me deixou falando sozinho.

Há um trecho no qual a calçada está intransitável dada a quantidade de entulho que é jogado lá. Toda semana a prefeitura limpa e toda semana volta a encher. Noutro quarteirão, que não tem entulho, a calçada continua intransitável pois há uma construção e o passeio público virou depósito de material. Tijolos, pedra e areia empurram os pedestres para o meio da rua.

Numa esquina há um posto de gasolina, mas sempre que passo alí tenho receio de ser atropelado, pois boa parte dos motoristas confunde entrada de posto (que é calçada) com continuação da pista. Isso sem falar em lixo jogado pela janela, mães que mandam seus filhos de livrarem de sacos de salgadinhos, embalagens de picolés e papéis de bala em qualquer lugar.

A grande maioria dessas pessoas ou não chega sequer a “pensar” sobre o quanto esses atos tornam a vida nas cidades mais difícil ou imagina que são “errinhos”, bobagenzinhas inofensivas que não fazem mal a ninguém.

Sempre reflito o quanto isso tem seu fundamento na formação histórica da sociedade brasileira. É claro que há que se levantar a história, o processo que levou a isso, sem inocentar o presente. Somos sim os grandes responsáveis por isso e é nossa, não do passado, a obrigação de mudar as atitudes.

Não há um consenso entre historiadores a respeito do quanto nossa sociedade foi formada de modo diverso de outras tantas nas Américas e do quanto a nossa é específica. É claro a falta de educação é mundial, bem como a existência de indivíduos que tem deficiências em cidadania.

No ano passado, nas duas vezes que estive na Argentina, fiquei impressionado como um povo tão mais instruído do que o nosso, tão mais politizado, consegue ser tão pouco cidadão, cometendo absurdos tais como os que nós mesmos cometemos.

Mas aqui, no Brasil, penso que nossa cidadania deficiente vem de uma questão ainda mais profunda. Ao longo da história nossa sociedade foi marcada por uma contraposição frequente entre o poder da Coroa Portuguesa e as populações. Nem sempre era assim, mas com bastante frequencia os administradores coloniais somente apareciam para poder extrair mais benefícios para o poder central.

Em tantos assuntos a administração colonial portuguesa se omitia, deixando a solução dos problemas a cargo de particulares ou de outras organizações, como a Igreja Católica. Assim, com o tempo, foi se consolidando uma imagem de um poder distante das populações, e mais distante quanto menor as rendas, até o ponto de estar totalmente distante, como no caso dos escravos.

A sociedade brasileira, em alguma medida, se formou em contraposição ao Estado. Outra decorrência dessa situação foi a consolidação de uma impressão de que “meu” é somente aquilo que me é particular. O que está do lado de fora não é meu, nem de ninguém. Assim, o espaço público não passou a ser compreendido como “aquilo que é de todos”, mas como “aquilo que não é de ninguém”.

Imagine deixar que alguém jogue lixo na sala de sua casa? Ou que estacione o carro em frente a sua garagem? Ou que quebre a torneira de seu banheiro? Nunca…. Mas raramente alguém fica indignado quando isso acontece nas ruas, pois se esquece que aquilo também é dele.

Para complicar ainda mais o processo some-se a isso os séculos de escravidão, durante os quais foi se construíndo um sistema social no qual os direitos são escalonados e atribuídos de acordo com critérios econômicos, regionais, de cor e de gênero (bases do nosso racismo velado, muitas vezes explícito também).

Mas em outros países não foi assim também? Não exatamente.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a independência do país foi construída por uma adesão maciça da população, formada de pequenos produtores, comerciantes, gente comum. No Brasil a independência e a formação do Estado se deu através de acordos de elites, com pouca ou nenhuma participação popular.

Nos países da América espanhola, em boa parte deles, ou uma expressiva população livre (como na Argentina e no Chile) ou uma larga base indígena (como na Bolívia, no Perú, no México) garantiram a formação de sociedades que tem outras relações com o espaço e a “coisa pública”.

Não que sejam países sem problemas, melhores ou piores do que o Brasil, mas certamente países que tem outras relações entre sua população e o espaço de “todos”.

Daí temos tantas decorrências disso: a falta de participação do brasileiro no acompanhamento das coisas públicas,a ausência de fiscalização dos poderes, deputados que estão “se lixando para a opinião pública”, certo desinteresse pela educação formal, e, até, o farol vermelho cruzado.

O pobre Gérson, jogador da Copa de 70, que teve a zica de emprestar seu nome a pior criação cultural brasileira, a Lei de Gérson, que possuí um único artigo, “Eu gosto é de levar vantagem em tudo”, deve ter, até ele, sentido na pele as implicações dolorosas disso no cotidiano. Inclusive porque com tal disseminação da nossa falta de cidadania todos são vítimas e réus.

Cidadania, de fato, é diverso de “instrução” e até mesmo de “educação”. Instrução significar conhecer algo, ter saberes sobre um certo assunto. Educação é o trato, o respeito entre as pessoas, o trato social. A cidadania é o conceito mais amplo, que desde os antigos gregos (os quais tinham uma cidadania bastante excludente, pois não inseria mulheres, estrangeiros e escravos) envolve a relação do ser humano com o espaço vivido, com a “cidade”. É um conjunto de princípios de respeito para com os outros, para consigo e para com o espaço coletivo, mas que exige empenho, atuação. A cidadania é um conceito que somente pode existir se for ativo, não existe uma cidadania silenciosa, somente receptiva.

E dos elementos - instrução, educação e cidadania - é da última que todos os dias sentimos na prática sua falta.


Fonte: http://colunistas.ig.com.br/indianasilv ... ncia-dela/